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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

The Film Handbook#91: Carl Th.Dreyer

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Carl Th.Dreyer
Nascimento: 03/02/1899, Copenhague, Dinamarca
Morte: 20/03/1968, Copenhague, Dinamarca
Carreira (como diretor): 1919-64

A ortodoxia crítica observa Carl Theodor Dreyer como um dinamarquês melancólico, um austero metafísico cristão lidando ininterruptamente com crises de fé e perseguição. Tal percepção, no entanto, ignora a fundamental humanidade de sua obra, para não mencionar seu estilo experimental, sua preocupação com a condição das mulheres na sociedade e suas  sucessivas análises das alegrias e tristezas do amor terreno.

É verdade, sua educação foi luterana, ainda que tanto seus empregos iniciais (como pianista em um café, jornalista esportivo, crítico teatral e de cinema) e seus primeiros filems, realizados após uma aprendizagem como roteirista desmente a imagem simplista de um comentarista cristão,. Influenciado por Sjöström e Griffith - Páginas do Livro de Satã, em quatro partes, é uma resposta ao Intolerância do último - Dreyer acerta o passo com A Quarta Aliança da Sra.Margarida/Prästänkan>1, uma comédia comovente e frequentemente bizarra sobre um jovem pastor que herda o posto e a mulher madura de seu predecessor para o desânimo dele próprio e de sua noiva. Uma narrativa farsesca de um amor jovem frustrado, o filme também antecipa preocupações futuras de Dreyer: a velha  na verdade, não é desagradável e, por fim, sacrifica com alegria sua própria vida para que a paixão do casal possa ser tão frutífera quanto suas próprias memórias.

Igualmente charmoso, Mikael e A Queda do Tirano/Du Skal aere din Hustru são focados nas armadilhas e prazeres do amor com crescente domínio. Foi no entanto, o produzido na França A Paixão de Joana D'Arc/La Passion de Jeanne d'Arc>2 que levou Dreyer a ganhar atenção da comunidade cinematográfica internacional. Uma narrativa intensa e profundamente comovente do sofrimento da santa durante as últimas horas de sua vida, o filme apresenta uma montagem desarticulada, imagens luminosas e movimentos virtuosos e panorâmicos de câmera numa quase abstrata contemplação do conflito entre o bem e o mal. Mesmo com toda sua elevada espiritualidade e técnica vanguardista, a Joana de Dreyer permanece uma viva e palpável garota camponesa do início ao final; numa sinfonia de arrebatadores close-ups, a atriz Falconetti revela toda a gama das emoções humanas.

Ainda mais experimental foi Vampiro>3, talvez o melhor dos filmes a abordar o sobrenatural. A narrativa é elíptica e fragmentada, e mesmo ilógica: o ponto de vista é constantemente alterado ou confundido; realidade e fantasia, o normal e o extraordinário mal são diferenciados enquanto o herói é levado em um mundo crescentemente irônico de forças sinistras e inexplicáveis. Suas imagens deslavadas e enevoadas (como Joana, filmadas por Rudolph Maté) são inesquecíveis: o herói vê seu próprio prematuro enterro através da janela de seu caixão; um médico sufocando em meio a montanhas de farinha; um velho com uma foice esperando silenciosamente, como a Morte, por um barco.

Demasiado sutil em sua inventividade para um público encantado por Drácula e Frankenstein, Vampiro foi um fracasso comercial e nos próximos 32 anos Dreyer somente realizaria mais quatro longas-metragens. Realizado após um intervalo de 11 anos, seu próximo, Dias de Ira/Vredens Dag>4, é estilisticamente de longe mais convencional, sua narrativa imponente e linear se desenrolando em imagens evocativas das pinturas do século XVII. Tematicamente, no entanto, o fascínio com o mal, o sobrenatural e a paixão persistem com uma jovem esposa de um velho pastor perseguida como bruxa quando um caso com seu enteado leva a morte de seu marido. Novamente, em A Palavra/Ordet>5, realizado após Dois Seres/Tva Manniskor do qual Dreyer perde muito rápido o interesse, a tênue linha entre o poder do amor e a atividade aparentemente divina (ou diabólica) é investigada quando um religioso visionário, considerado insano pela família e moradores do vilarejo produz o milagre de trazer de volta a vida uma cunhada que morreu ao dar a luz uma criança. Mas apesar do filme dizer respeito as diversas crises de fé nunca degenera em obscurantismo ou especulação teológica; como sempre, houve uma topografia diversificada da alma humana que Dreyer desejou explorar.

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A face de Falconetti em A Paixão de Joana d''Arc, de Dreyer
A Palavra apresentou o retorno de Dreyer a um estilo formal mais radical de filmagem, com uma cãmera circundando interiores fortemente acinzentados e pastos iluminados pelo luar em planos longos e elegantes. Porém seu filme final, Gertrude/Gertrud>6 (suas duras horas de duração consistindo de somente 89 planos, a maior parte filmados em interiores) provou ser demasiado estático e lento para muitos. Sua estreia em Paris foi saudada com gritos derrisórios; mesmo hoje, quando assistido, divide o público. O retrato de uma mulher intelectualizada de meia-idade que abandona o marido e o amante para viver solitária em Paris, diz respeito ao desejo (no seu caso, não correspondido) por amor. Como, entretanto, Joana, a mulher do pastor e as jovens em Dias de Ira e A Palavra, Gertrude não é mera vítima; nutrida por suas memórias e fé no poder do amor, ela é confiante, até o final, da integridade de seus próprios sentimentos.

Após Gertrude, Dreyer dispendeu os últimos quatro anos de sua vida planejando obras sobre a vida de Cristo e Medeia, os mártires seguintes da paixão; os filmes nunca foram realizados, mas os projetos enfatizavam sua continuada gravidade, ambição e humanidade até a morte. Ele foi um dos maiores diretores de cinema; muitos poucos rivalizaram com sua habilidade de implicar a qualidade ou mesmo  a própria existência do espírito humano, através de um estilo ascético e comedido, em um meio fundamentalmente materialista e preocupado com as  superfícies como o cinema.

Cronologia
O jovem Dreyer pode ser comparado com Sjöström e Mauritz Stiller. Griffith, igualmente, foi uma influência. Suas preocupações  e estilo são talvez mais claramente refletidos nos filmes de Bergman, enquanto Paul Schrader traçou paralelos com Bresson e Ozu. Godard prestou seu tributo ao Joana de  Dreyer em Viver à Vida, enquanto Gertrude pode ser comparado, de forma interessante, com Effi Briest, de Fassbinder

Leituras Futuras

The Cinema of Carl Dreyer (Londres, 1971), de Tom Milne, Dreyer (Londres, 1977), de Mark Nash, Transcendental Style in Film (Los Angeles, 1972), de Paul Schrader. Dreyer in Double Reflection (Nova York, 1973) traz os próprios escritos de Dreyer sobre o cinema.

Destaques
1.A Quarta Aliança da Sra. Margarida, Suécia, 1920 c/Hildur Carlberg, Einar Rod, Greta Almroth

2. A Paixão de Joana d'Arc, França, 1927 c/Falconetti, Michel Simon, Antonin Artaud

3. Vampiro, Alemanha, 1932 c/Julien West, Sybille Schmitz, Rena Mandel

4. Dias de Ira, Dinamarca, 1943 c/Thorkild Roose, Lisbeth Movin, Sigrid Neiiendam

5. A Palavra, Dinamarca, 1954 c/Henrik Malberg, Birgittte Federspiel, Preben Lerdoff Rye

6. Gertrude, Dinamarca, 1964, c/Nina Pens Rode, Bendt Rothe, Ebbe Rode

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, pp. 88-90.

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