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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

The Film Handbook#95: Terence Davies

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Terence Davies
Nascimento: 10/11/1945, Liverpool, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1972-

Embora seus filmes até o momento sejam poucos, Terence Davies é talvez o mais ambicioso e promissor diretor atualmente em atividade na Inglaterra. Com somente uma trilogia e um díptico em seu nome (cada um durando menos de duas horas) ele tem demonstrado, de uma vez por todas, que o cinema britânico pode ser poético, pessoal e profundo.

A Trilogia de Terence Davies >1 (Children, Madonna and Child e Death and Transfiguration) foi realizada a um período de mais de dez anos, durante e após o tempo em que estudou arte dramática e cinema. Inspirado por suas próprias experiências emocionais, os filmes seguem um liverpooliano católico e gay de uma escola execrável e intimidadora passando por uma dominadora mãe de meia-idade até uma morte dolorosa em um hospital. A litania de crueldade e culpa é tanto honesta quanto não sentimental, sendo a maior façanha de Davies transcender os clichês do mero realismo humanista através de estilizadas imagens em branco&preto, um roteiro taciturno e uma narrativa que gradualmente abandona a progressão linear por uma complexa fragmentação enquanto seu herói envelhece. Memória, desejo e medo criam associações ousadas e originais: planos de uma igreja são sobrepostos a voz de um homem ao telefone indagando se poderia ter seus genitais tatuados; no momento de sua morte, ele percebe a luz encadeadora de uma tocha dirigida pela enfermeira a sua face como sua entrada no reino dos céus. O engenhoso e clarividente foco nos sofrimentos emocionais e espirituais se combinam na criação de uma narrativa grave, inteligente e estranhamente elevada da capacidade da alma humana de triunfar sobre a degradação física.

Ainda mais notável foi Vozes Distantes/Distant Voices, Still Lives>2,  no qual Davies mais uma vez recorre às memórias da vida familiar na Liverpool dos anos 40 e 50 com devastador efeito imaginativo. Uma vez mais a situação é adversa com um brutal e austero patriarcado transformando as vidas da esposa e filhas em um pesadelo sombrio e sem fim; mais uma vez o filme procede por associações de memória - associações que se movem para diante e para trás entre reuniões de família (um batizado, casamentos, um funeral) no qual a capitulação a canções do período servem para reforçar a natureza comunal da classe trabalhadora há muito perdida e realçar, embelezar e contrapor as emoções, situações e relações da história: um público de cinema escuta arrebatado ao tema romântico de Suplício de uma Saudade - Love is a Many Splendored Thing após uma mulher se desmanchar em lágrimas em um bar pela escolha equivocada de marido; uma garota é forçada por seu pai a cantar "Roll Out the Barrel" em um abrigo anti-aéreo enquanto as bombas explodem acima. Igualmente notável é o seguro estilo visual de Davies a rica coloração da fotografia em tons marrons evocando um mundo de limitações e dificuldades, as imagens surreais (espantosamente, dois homens a cair em câmera lenta distantes da câmera) enfatizando a natureza subjetiva e interior da "trama".

Realizados com baixos orçamentos proporcionados por fundos institucionais, os filmes de Terence Davies revelam um realizador altamente original e audacioso. Poucas figuras contemporâneas conseguem ter a capacidade ou o seu interesse em projetar os recessos sombrios e as cavernas da alma; ainda menos o fazem com tanta sinceridade e compaixão. De fato, ele é algo como uma raridade: um diretor britânico, mas nunca provinciano, que encara o cinema sério e apaixonadamente, portanto preenchendo as mais elevadas demandas da arte.

Cronologia
As digressões altamente pessoais do realismo efetuadas por Davies o alinham mais aproximadamente com diretores europeus como Bresson, Bergman, Antonioni e Resnais que com seus compatriotas. Apesar de única, sua trilogia tem sido comparada, equivocadamente, com a de Bill Douglas.

Destaques
1. A Trilogia de Terence Davies (Children; Madonna and Child; Death and Transfiguration), Reino Unido, 1976/80/83 c/ Philip Maudesley, Terry O'Sullivan, Wilfrid Brambell

2. Vozes Distantes, Reino Unido, 1986/88 c/Freda Dowie, Pete Postlewaite, Angela Walsh

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 72-3.

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