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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Filme do Dia: Tokyo-Ga (1983), Wim Wenders


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Tokyo-Ga (EUA/Al. Ocidental, 1983). Direção e Rot. Original: Wim Wenders. Fotografia: Edward Lachman. Música: Laurent Petitgrand. Montagem: Solveig Dommartin, Jon Neuburger & Wim Wenders.

Realizado em um período que Wenders parecia algo obcecado, como boa parte dos teóricos da imagem, pela pretensa impossibilidade crescente da conjugação entre imagem e realidade, e do papel do cinema em relação a tudo isso (como se pode comprovar nas perguntas aos cineastas de Quarto 666). No tocante encontro com Chishu Ryu, esse admite, quase como se desculpando,  logo após se deparar com um grupo de mulheres que o reconheceu, que isso se deve a uma participação recente em uma série para a TV e ninguém o reconheceria como ator dos filmes de Ozu. Wenders associa as imagens de Ozu como prenhes de uma realidade, de uma verdade que não mais existe no cinema, sobrando somente “Mu”, ou seja, o nada, o que justamente era a única coisa escrita sobre a lápide de Ozu. Wenders intuitivamente toca em temas como o do esvaziamento da memória provocado pelo que é filmado, como se essas se tornassem muito mais persistentes quando vivenciadas sem a moldura de algo a lhes registrar maquinicamente. Um ideal de massificação, mecanização, anonimato e compulsão parece espelhado nas bolas, sejam as de fliperama ou de golfe, filmadas de ângulos bastante similares. E pela quantidade de pessoas que se amontoam jogando, mesmo sem verdadeiramente interagirem, ressaltando o caráter solitário da atividade. Ao caráter algo amorfo da televisão observada sem áudio na tela do avião que o leva ao Japão (e que exibe Num Lago Dourado, filme de sucesso à época), Wenders volta sua câmera para a asa do avião, uma de suas marcas registradas (e uma tentativa desesperada de afirmação autoral diante da banalidade da maior parte das imagens consumidas a todo momento?). A distinção de seu projeto do de Werner Herzog, que surge a determinado momento, conversando com o realizador do topo de um mirante que se observa Tóquio, encontra-se em que o último busca por imagens “transparentes”, intocadas pelo homem e que seria capaz de viajar com uma câmera para outro planeta em busca disso enquanto Wenders afirma que seu interesse está mesmo no caos da cidade. A relação do simulacro com seu “original” também parece interessar demasiado o realizador, seja na fábrica em que se cria pratos com diversas atrações a base de gelatina, mas fazendo uso dos próprios condimentos em um momento inicial ou dos jovens japoneses imitando a geração dos norte-americanos dos tempos de Presley e James Dean nos trajes, danças e músicas. O câmera que acompanhou os últimos filmes de Ozu explica como eram realizados seus planos mais abertos ou primeiros planos, sempre com câmera fixa. Não deixa de ser tocante o momento aparentemente casual de sua fala, que ele afirma que queria mostrar a Wenders o cronômetro que Ozu utilizava e lhe dera, única recordação material que trazia do realizador segundo ele – o que não é bem verdade, tendo em vista um roteiro original de Ozu que ele empresta a Wenders por alguns dias. É o depoimento mais forte e interessante para se ter acesso ao próprio processo criativo dos filmes de Ozu e finda com um emocionado Yûharu Atsuta se emocionando não quando fala de Ozu, mas justamente quando afirma sua tentativa de continuar a carreira com outros realizadores e prontifica o quanto seu trabalho foi inferior e não sentia nada pelos realizadores com quem trabalhou – sua fidelidade a Ozu o havia feito afirmar pouco antes que provavelmente nenhum outro assistente de fotografia, posteriormente diretor, havia trabalhado em todos os filmes de um realizador como ele. Se a intenção inicial que mobilizou Wenders foi a de observar até que ponto ainda se encontraria vestígios da Tóquio filmada por Ozu, vinte anos após seu último filme, suas próprias imagens já documentam uma Tóquio de outra época, mais distante ainda quando se escreve da própria produção de Wenders. Com direito a imagem de um olho só do realizador/fotografo Chris Marker em um bar em Tóquio que leva o nome de seu célebre La Jetée, o filme finda com os planos finais de Era Uma Vez em Tóquio (1953). Chris Sievernich Filmproduktion/Gray City/WDR/Wim Wenders Prod./Wim Wenders Stiftung. 92 minutos.

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