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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Filme do Dia: O Que a Carne Herda (1949), Elia Kazan


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O Que a Carne Herda (Pinky, EUA, 1949). Direção: Elia Kazan. Rot. Adaptado: Philip Dunne & Dudley Nichols, baseado no romance de Cid Ricketts Sumner. Fotografia: Joseph MacDonald. Música: Alfred Newman. Montagem: Harmon Jones. Dir. de arte: J. Russell Spencer & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Thomas Little & Walter M. Scott. Figurinos: Charles Le Maire. Com: Jeanne Crain, Ethel Barrymore, Ethel Waters, William Lundigan, Basil Ruysdael, Kenny Washington, Nina Mae McKinney, Griff Barnett.
Pinky (Crain) é uma jovem de sangue negro e pele branca que decide voltar ao Sul, após ter se formado como enfermeira, às custas do esforço da pobre lavadeira sua avó (Waters). Noiva do médico de carreira promissora em Boston, Dr. Thomas Adams (Lundigan), Pinky não mais se adapta a cruel realidade vivida pelos negros, sendo vítima de uma tentativa de estupro. Quando decide ir embora, sua avó a faz mudar de idéia e cuidar da velha solitária Miss Em (Barrymore) que, apesar de toda sua arrogância e de ser branca, cuidara dela quando ela estivera muito doente recentemente. Pinky passa a cuidar de Miss Em e aos poucos se torna amiga da velha senhora, sofrendo muito com sua morte. Após a execução do testamento, Pinky é aquinhoada com a casa onde morara Miss Em, decisão que não é aceita por sua gananciosa prima, Melba Wooley (Varden). Porém, a decisão judicial é favorável à Pinky, que dispensa o casamento e uma nova vida como “branca” com Thomas, para levar a frente o projeto aludido por Miss Em no testamento, montando uma escola-creche para seus “irmãos de sangue”.
Realizado logo após o grande sucesso comercial proporcionado por A Luz é para Todos (1947), onde explorava a discriminação aos judeus na sociedade americana, Kazan continua aqui sua empreitada liberal sem maiores sutilezas. Partindo do melodrama como instrumento para traçar um painel da sociedade americana que pretende como válido para o futuro, a partir de um maior igualitarismo para os negros, a trama obviamente se choca com limitações que transcendem o pretenso desejo por uma nação mais justa. Embora o filme pareça endossar a ideia da avó negra sobre os valores da amizade como mais importantes que as diferenças de cor e a auto-afirmação arrogante da protagonista, a própria tessitura da ficção desconstrói tal pretensão. Antes de tudo, pelo filme expressar a construção da raça mais em termos genéticos que enquanto construção social, como deixa entrever o título brasileiro, bastante representativo das delimitações étnicas nos Estados Unidos. Assim, Pinky sentiu o clamor de seu próprio “sangue” pedindo que não renegasse suas origens e tentasse ser uma caricatura do que “essencialmente” não é. Depois, pelo fato de que Pinky, a representante dessa negritude, ser branca, podendo assim se tornar palatável para o público médio americano (como a Escrava Isaura, em nossa literatura romântica). Por fim, e não menos importante, continua-se na chave do segregacionismo racial, já que não se torna possível haver uma união entre a auto-afirmação da “negritude” de Pink e a figura que o noivo reconhece apenas enquanto Pat, a ficção de branca criada por ela própria. Nesse sentido, até a diferença de nomes acentua se tratarem de duas possibilidades de construção de identidade auto-excludentes. Na verdade, a posição de Pinky demonstra o próprio paradoxo ideológico do filme, seguindo a cartilha da avó ao aceitar cuidar da velha dama branca, porém recusando o casamento com um branco que poderia, em última instância, ser a matriz para se pensar uma América “miscigenada”. No último caso, o orgulho racial foi mais forte que a situação de trabalhar gratuitamente para a branca que lhe humilhara na infância, o que não deixa de ser grandemente sintomático da força que o tabu do casamento miscigenado ainda evocava. Um dos elementos mais plenamente melodramáticos na estrutura do filme é a trilha sonora assinada por Newman. 20th Century-Fox. 102 minutos.

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