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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

The Film Handbook#94: Woody Allen

Woody Allen on the set of Everything You Wanted to Know About Sex But Were Afraid to Ask.

Woody Allen
Nascimento: 01/12/1935, Brooklyn, Nova York, EUA
Carreira (como diretor): 1969-

Embora muitos outros cômicos recentes das telas tenham endereçado sua estúpida e descuidada fraude ao público juvenil, Allen Stewart Konigsberg, como nasceu, tem sido unicamente consistente em se direcionar a gostos mais adultos. Sua comédia é aquela crescentemente definida pelo personagem: notavelmente, o seu próprio.

Como Mel Brooks e Carl Reiner, Allen trabalhou nos anos 50 escrevendo para Sid Caesar antes de por si próprio se tornar um comediante de stand-up. Em meados dos anos 60, ele diversificou ainda mais suas contribuições de roteiros e performances em Que é Que Há, Gatinha?/What's New Pussycat? e Cassino Royale/Casino Royale. Após acrescentar uma dublagem absurda ao thriller de espionagem japonês em O Que Há, Tigresa?/What's Up, Tiger Lily?, ele realizaria sua própria estreia na direção com Um Assaltante Bem Trapalhão/Take the Money and Run. Essa sátira aos filmes de crime estabeleceu uma fórmula para suas posteriores paródias desarticuladas - da revolução sul-americana (Bananas), educação sexual (Tudo o Que Você Queria Saber Sobre Sexo/Everything  You Always Wanted to Know About Sex), velhos filmes de Humphrey Bogart (Sonhos de um Sedutor/Play It Again, Sam), ficção-científica (O Dorminhoco/Sleeper) e literatura russa (A Última Noite de Boris Gruschenko/Love and Death)>1. O herói que é apresentado é um homem comum nos moldes de Chaplin, fracassado com as mulheres, acovardado e cheio de neuroses modernas sobre morte, sexo e injustiça cósmica. Artisticamente, os filmes foram um amontoado de romance, piadas e pastelão, despreocupados com qualquer personagem que não fosse o próprio Allen. Se A Última Noite de Boris Gruschenko é, de longe, o melhor de sua obra inicial, é por conta dos livros e filmes que inspiraram sua paródia serem temas que ele amava: a montagem de Eisenstein dos leões de pedra em O Encouraçado Potemkin teve sua ordem revertida para descrever as proezas sexuais de Woody.

Seu primeiro grande sucesso de público e crítica, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa/Annie Hall>2 demandou uma mudança de estilo. Apesar de ainda persistir a ausência de coerência narrativa e depender demasiado de efeitos de trucagens (tela dividida, diálogo com legendas, monólogos diretamente para a câmera), foi notavelmente um trabalho mais pessoal. Com o próprio Allen como o comediante judeu Alvie Singer e inspirado por sua relação fora das telas com a sua co-estrela Diane Keaton, a comédia foi imbuída de tensa seriedade. Pela primeira vez Allen analisou temas que se tornariam recorrentes em sua obra posterior, tais como o conflito moral entre um intelecto torturado e uma menos meditativa espontaneidade, a fugacidade do amor e a fragilidade da felicidade.

Leonard Zelig alongside President Coolidge and President Hoover in ZELIG    1983, Director: Woody Allen
O camaleão humano Leonard Zelig (Woody Allen) se socializando com os presidentes Calvin Coolidge e Herbert Hoover, em Zelig

O sucesso do filme encorajou-o a experimentações maiores. O sombrio Interiores/Interiors foi um pretensioso tributo a Bergman. Manhattan>3 fez excelente uso do trabalho de câmera em preto&branco de Gordon Willis, da música de Gershwin e uma ampla variedade de personagens enquanto trabalhava uma sutil sátira social de outro romance fracassado; Memórias/Stardust Memories trazia a narrativa de um realizador criativo bloqueado em face da hostilidade de público e crítica. Foi tanto autobiográfico quanto um banal tributo ao 8 e 1/2 de Fellini. Todos apresentavam a crescente confiança e competência de Allen como artista dramático; todos, no entanto, ainda exibiam suas neuróticas obsessões com uma sombria e auto-indulgente ausência de ironia.

O fracasso de Memórias provocou aparentemente uma mudança de rumos. Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão/A Midsummer Night's Sex Comedy mesmo ofuscado pelos heróis culturais de Allen (Bergman, Shakespeare, Renoir, Tchecov) exala um calor até então não visto. Então vieram diversos filmes semelhantemente "menores" que, a despeito das ambições aparentemente limitadas, sugeriam uma maturação na arte de Allen. Zelig>4 foi uma engenhosa sátira ao documentário sobre um esquecido alucinado cuja aparência física por inteiro se modificava para se adequar as pessoas que encontrava foi não somente hilariante (O Zelig de Allen é visto interagindo com Hemingway, Hitler e o Papa) como uma análise profunda das questões identitárias e de performance; Broadway Danny Rose foi uma engenhosa paródia de romance-gangster; e A Rosa Púrpura do Cairo/The Purple Rose of Cairo, no qual uma garçonete balzaquiana se apaixona por um herói ficcional que sai da tela do cinema para a vida real, foi uma comovente meditação sobre as relações entre experiência e ilusão, assim como a capacidade do cinema de alimentar a nossa necessidade de sonhar.

Hannah e Suas Irmãs/Hannah and Her Sisters>5 observou o retorno de Allen a uma perspectiva mais ampla (e a alta sociedade de Manhattan) com o delicado retrato romântico das tensões e relutantes traições da vida familiar. Embora Tchecov e as filhas de Lear pairem aladas, o próprio estilo de Allen ganha o centro do palco; até mesmo sua agora familiar invocação das coisas boas da vida (arte, comédia, amigos, festas familiares) se integram à historia ao invés de serem mera constatação. Mais impressionantemente, no entanto, os outros personagens não eram desenhados com menos cor que o bobo da corte hipocondríaco vivido sempre pelo próprio diretor.

Foi uma pena, então, que ele tenha recorrido à fantasia e à nostalgia felliniana em A Era do Rádio/Radio Days, enquanto a solenidade artística de Setembro/September tenha servido para revelar sua direção crescentemente estilizada e elegante. A Outra/Another Woman mais uma incursão sobre a melancolia de personagens de meia-idade em meio às classes médias ricas e educadas, foi em geral considerado insípido, pretensioso e, mesmo, irrelevante. De toda forma, a carreira de Allen tem prosseguido  intermitentemente, e seu corpo de trabalho é um dos mais inventivos, admiráveis e ambiciosos dos últimos anos. Tendo construído uma carreira  a partir da boa vontade do público de tolerar suas ansiedades pessoais - os filmes exalam o divã do analista - Allen tem, paradoxalmente, demonstrado ser, frequentemente, um estranho artista à parte. Esse é, na verdade, o segredo de seu sucesso.

Cronologia
A obra inicial de Allen é reminiscente de Chaplin e o humor judaico nova-iorquino define muito de sua inspiração verbal, sendo também um auto-confesso intelectual; referências a Bergman, Fellini et al abundam. Seu estilo idiossincrático possui poucos imitadores bem sucedidos.

Leituras Futuras
Woody Allen: His Life and Career (Londres, 1986) de Douglas Brode; Woody Allen Beyond Words (Londres, 1986), de Robert Beyanoun

Destaques
1. A Última Noite de Boris Gruschenko, EUA, 1975 c/Allen, Diane Keaton, Harold Gould

2. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, EUA, 1977 c/Allen, Diane Keaton, Tony Roberts

3. Manhattan, EUA, 1979, c/Allen, Diane Keaton, Mariel Hemingway

4. Zelig, EUA. 1983 c/Allen, Mia Farrow, Stephanie Farrow

5. Hannah e Suas Irmãs, EUA, 1986 c/Michael Caine, Barbara Hershey, Mia Farrow, Dianne Wiest, Allen

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 9-11.

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