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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Filme do Dia: Aquarius (2016), Kléber Mendonça Filho


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Aquarius (Brasil, 2016). Direção e Rot. Original: Kléber Mendonça Filho. Fotografia: Pedro Sotero & Fabrício Tadeu. Montagem: Eduardo Serrano. Dir.de arte: Juliano Dornelles & Thales Junqueira. Figurinos: Rita Azevedo. Com: Sônia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Barbara Colen, Carla Ribas, Irandhir Santos, Fernando Teixeira, Pedro Queiroz, Thaia Perez.
1980. Clara (Colen) consegue vencer um câncer e recebe um tributo de seu marido no aniversário de  70 anos de sua Tia Lucia (Perez). 2015. Clara (Braga)  vive sozinha em um prédio no qual todos os outros moradores já saíram, boa parte deles por conta da proposta da Bomfim Engenharia, cujo neto de seu proprietário Geraldo (Teixeira), Diego (Carrão) é quem comanda a operação para tentar fazer com que Clara também venda seu apartamento.

Tal como em seu longa de estreia, O Som ao Redor, existe pontos em comum tanto em termos de estruturação dramática quanto da proposta central do filme. Ou seja, a partir de pequenos micro-eventos se trabalha na chave alegórica, fazendo uso do espaço de moradia – que já havia sido tema de filmes como Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor, Sábado (1995), de Ugo Giorgetti ou Redentor (2004), de Cláudio Torres - como metáfora para uma relação de forças extremamente desigual que impera na sociedade brasileira. Igualmente, como em seu primeiro filme, sobretudo se se parte do recorte apresentado por seu trailer, episódios parecem acenar para uma posterior dramatização no sentido de criarem ganchos para um eventual desdobramento dramático afinado com filmes de gênero,  como as cenas de sexo grupal ou o salva-vidas a indagar de Clara se ela está o assediando ou mesmo a cena de arrombamento de um apartamento, para não falar da dos jovens de periferia que se aproximam de uma atividade grupal terapêutico-desportiva sendo realizada por um típico grupo de classe média.  E, de forma mais discreta, um momento de representação de sonho é apresentado, embora essa aproximação ambígua com os elementos dos filmes de gênero e a própria tensão sejam melhor aproveitados em seu filme anterior. Numa das cenas mais fortes do filme, a Clara de Braga demonstra ter sofrido uma mastectomia, ponto fulcral, para além da idade, para que sua vida sexual seja praticamente inexistente. E o filme aposta numa construção dual entre a carismática remanescente de um país menos dependente do vil metal enquanto norte inclusive para as relações afetivas e o extremo oposto, representado na figura cínica e odiosa vivida por Carrão, repetindo igualmente uma estratégia de seu filme anterior, ainda que lá menos polarizada exatamente entre personagens individuais. Faz parte do primeiro o mundo da memória, representado por fotos antigas, vinis (que trazem uma história de vida junto a eles, como é o caso exemplar do disco de Yoko Ono e John Lennon Double Fantasy citado por Clara em uma entrevista, numa lógica da circularidade física impossível de ser reproduzida no universo digital) e uma força moral algo incontestada, inclusive por seus rivais (numa aproximação possível, inclusive, com a presidenta Dilma Rousseff, algo mais acentuado ainda com o  longo processo de impeachment que ocorreu após a produção do filme). Do outro a esterilidade da grana que “destrói coisas belas”.  Como toda alegoria que se preze, o filme não investe em meios tons ou arrisca apresentar de forma menos positivada ou mais nuançada o setor social ao qual o próprio realizador se identifica, algo que teria sido interessante sem necessariamente ter que recorrer ao cinismo no estilo de um Bianchi (Cronicamente Inviável). E talvez não ter sido tão radical na quixotesca figura de Clara, fazendo com que ao menos uns poucos moradores também continuassem morando no prédio tornasse tudo mais verossímil, algo que igualmente seria contraproducente em termos da alegoria buscada. Talvez o que falte para que a consumação do processo de identificação se dê de forma mais satisfatória seja a fragilidade sobre o qual é construída essa personagem, mesmo com toda a grandeza que lhe é emprestada por Sônia Braga, na atuação talvez mais memorável de sua carreira.  E isso talvez se dê pela própria dificuldade do realizador na elaboração de personagens individuais de maior complexidade psicológica – algo ausente de seu primeiro longa, de protagonismo diluído. Fazendo um uso bem maior de canções que O Som ao Redor, se seria leviano afirmar que ocorre uma dependência das mesmas para emprestar uma carga dramática, tampouco seu excesso é benéfico ao filme, apontando para traços de certa condescendência que se tornam mais acentuados que os referentes a sua própria extensa metragem, pouco sentida dentro da dinâmica do filme. Ao contrário de boa parte da produção pernambucana-nacional recente, em que uma música “brega” surge em determinado momento clímax do filme, Mendonça já inicia com uma canção que foi um de seus maiores acertos, Hoje, de Taiguara, podendo ser identificada como a “cara do filme”,  inclusive pela forte resistência de seu compositor à ditadura militar, retornando ao final para fechar o ciclo, que se se resolve em termos musicais, fica algo a dever na própria opção de desfecho, catártica e em aberto ao mesmo tempo como havia sido a de seu filme anterior, mas nem de longe tão interessante.  Se existe uma relação evidente de paralelismo entre a tia e Clara, outra vem a ser ressaltada entre Clara e seu sobrinho, com quem tem mais proximidade que os filhos; à exceção parcial desse sobrinho, o filme tem uma visão bem pouco otimista da juventude, observada como alienada e meritória de paciência como é o caso da jornalista que entrevista Clara, em postura pouco generosa. Dentre as referências  geracionais vinculadas não somente à personagem como a atriz principal, está evidentemente o título do filme, uma referência a cultura hippie e a utópica Era de Aquarius então sonhada (sendo que Braga, como a letra de Caetano lembra, trabalhou na versão teatral brasileira de Hair). Destaque para coadjuvantes que vivenciam papéis similares aos do filme prévio, como Irandhir Santos ou o ator (Yuri Holanda) que interpreta o jovem da elite que trafica drogas aqui numa ponta, que antes interpretara Dinho, o primo playboy e ladrão. CinemaScópio Prod./SBS Productions/Videofilmes/Globo Filmes para Vitrine Filmes. 142 minutos.

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