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sábado, 2 de agosto de 2014

Filme do Dia: Crônica da Cidade Amada (1964), Carlos Hugo Christensen




Crônica da Cidade Amada (Brasil, 1964). Direção: Carlos Hugo Christensen. Rot. Adaptado: Millôr Fernandes, baseado em contos de Carlos Drummond de Andrade, Orígenes Lessa , Paulo Mendes Campos, Dinah Silveira de Queiroz, Paulo Rodrigues, Fernando Sabino. Fotografia: Özen Sermet. Música: Lyrio Panicalli. Montagem: Waldemar Noya. Com: Jotta Barroso, Miltom Carneiro, Jaime Costa, Moacir Deriquém, Liana Duval, Procópio Ferreira, Jardel Filho, Fregolente, Eliezer Gomes, Oswaldo Louzada, Oscarito, Grande Othelo, Cecil Thiré, Zbigniew Ziembinski, Márcia de Windsor, Sílio Bocannera.
Oito histórias ambientadas no Rio. Em Aparição, o surgimento de uma ninfeta na praia de Copacabana faz parar metade do bairro. Uma discussão sobre a aceitação de uma cédula em um bar é o tema de O Índio. Malentendido retrata a amizade entre um filho de grã-finos e seu amigo negro e pobre, vendedor de amendoim, porém dono de um futebol bem superior. Aventura Carioca é a odisséia de dois boêmios pela noite carioca. Um deles, conhecido de todos, sai-se bem em todas as situações, inclusive da prisão final, após terem praticado arruaça na praia, atirando para o alto. Luzia é sobre o breve encontro, em um supermercado, entre uma ex-empregada, que ascendeu socialmente, e seu ex-patrão. O Homem Que Se Evadiu, sobre o trabalhardor incansável que, nunca tendo tirado férias, resolve conhecer o Rio, afirmando para a mulher que viajara para Buenos Aires. A farsa é descoberta quando, completamente embriagado, é deixado pelos amigos em sua própria casa. O Pombo Enigmático, sobre as promessas de casamento entre um casal de pombos, simultânea ao casal de jovens enamorados. Um Pobre Morreu, sobre a festa que acaba se tornando o velório em um barraco de favela. Receita de Domingo apresenta todos os ingredientes para um final de semana típico da família classe média. A Morena e o Louro narra a história de uma menina que não consegue embarcar em um bonde porque carrega um papagaio. A situação muda de figura quando o papagaio demonstra saber alguns versos do hino nacional. Iniciada a Peleja sobre o executivo de uma empresa que prefere escutar o jogo do Brasil a participar de uma reunião importante. Desmascarado o seu plano, quando comemora um gol da seleção, os executivos cancelam a reunião e passam a acompanhar a transmissão pelo rádio.
Essa comédia, luxuosamente fotografada em cores, soa inócua e excessivamente datada nos dias de hoje. Porém, entre alguns episódios francamente rídiculos, como o dos pombos (em que o casal humano arrulha, enquanto os pombos conversam) e a excessiva pausterização copiada dos moldes americanos (o divertido episódio com Oscarito sobre um domingo na classe média é semelhante as crônicas contemporâneas sobre a classe média americana de Disney em desenho animado) sobressaem alguns momentos em que, menos o lirismo planejado que as músicas e as paisagens,  como os costumes, fazem despontar um tom nostálgico. A adaptação de alguns dos maiores contistas brasileiros foi grandemente prejudicada pela já referida homogeneização estilística. Entre alguns episódios que simplesmente soam deslocados encontra-se Luiza, filmado quase todo em um longo plano, onde hoje fica difícil encontrar algum elemento de humor, assim como A Morena e o Louro e O Índio. Desnecessário afirmar que, reproduzindo plenamente a ideologia da época, a mulher não cabe o papel mais que de objeto, esposa ou assexuada, sendo todos os sketches reproduções exclusivas do olhar masculino e o nacionalismo ufano também ganha destaque em vários momentos. No prólogo, a narração de Paulo Autran desfia clichês sobre o universo do Rio, centrados no futebol, samba e mulheres. Bem melhor e mais plenamente cinematográfico, será o resultado de outro painel sobre os costumes de indivíduos e segmentos sociais da mesma cidade, na produção mais modesta, e igualmente dividida em sketches, As Cariocas (1966). Serrano Filmes.  110 minutos.

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