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domingo, 2 de março de 2014

Filme do Dia: O Bígamo (1953), Ida Lupino

O Bígamo (The Bigamist, EUA, 1953). Direção: Ida Lupino. Rot. Adaptado: Collier Young, baseado no conto de  Larry Marcus &  Lou Schor. Fotografia: George E. Diskant. Música: Leith Stevens. Montagem: Stanford Tischler. Dir. de arte: James W. Sullivan. Cenografia: Edward G. Boyle. Com: Edmond O'Brien, Ida Lupino, Joan Fontaine, Edmund Gwenn, Kenneth Tobey, Jane Darwell
         Harry Graham (O’Brien), decide concordar com a decisão da esposa, Eve (Fontaine), de adotar uma criança, já que ela não pode ter filhos. Eles acabam contactando o Senhor Jordan (Gwenn), que passa a desconfiar da postura extremamente defensiva de Graham. Sabendo que ele divide sua vida entre Nova York e Los Angeles, onde trabalha como vendedor, Jordan descobre que seu nome não consta entre os motéis e hotéis da cidade. Descobre igualmente que ele possui outra identidade, Harrison, e se encontra casado com outra mulher, Phyllis Martin (Lupino), com quem já possui um filho. Encurralado, Graham conta toda a sua história a Jordan. Sentindo-se profundamente carente, com uma esposa distante e cada vez mais preocupada apenas com os negócios que dividem, Graham  casualmente encontra Phyllis em um tour por Beverly Hills, destacando a casa dos ricos e famosos. Graham e Phyllis passam a viver um amizade que logo se revela como uma intensa atração de ambas as partes. Após uma noite de amor, no dia do aniversário de Graham, esse acaba dizendo a Phyllis que viajará no dia seguinte. Após um longo tempo sem voltar à Califórnia, Graham descobre que Phyllis não mais trabalha no restaurante chinês e, quando volta a encontrá-la, descobre igualmente que se encontra grávida dele. Curiosamente ela não pretende saber nada sobre a vida pregressa de Graham. A situação piora quando Eve se torna frágil, com a morte do pai, e repentinamente vai até a Califórnia no aniversário do oitavo ano de casamento. Quando sai do escritório com Eve, Graham é reconhecido por um vizinho. Phyllis o expulsa de casa, mas não ressiste ao seu pedido de encontrar-se com ele no dia seguinte, quando se reconciliam. Extremamente atormentado, no entanto, Graham escreve uma carta de despedida e parte para Nova York, disposto a revelar toda a verdade a Eve. Acaba não tendo tempo e se entregando a Polícia. Absolvido pelo tribunal, depara-se pela primeira vez com suas duas mulheres no mesmo local.
Tocante tanto na franca expressão da carência afetiva de seus personagens quanto na pouco usual desglamorização do mundo que retrata. Assim, quando Phyllis convida Graham para o restaurante, acaba lhe revelando que também trabalha no mesmo. Ou ainda no momento em que o casal se conhece, num tour pelas mansões dos astros de Hollywood, o filme ironicamente faz um contraponto com a visão standard na época , já que, na verdade, a heroína aqui apenas pretende descansar seus pés e o mocinho nada mais que fugir da realidade solitária, e procurar se integrar, ainda que efemeramente, a um grupo de pessoas. Seu tom sóbrio e anti-sentimental – que se estende até a trilha sonora - praticamente percorre do início ao final da narrativa, com a única exceção do momento em que Eve acompanha Graham a se entregar aos investigadores. Utilizando-se de certos recursos estilísticos típicos do cinema noir, como o flashback e a voz over o filme, no entanto, consegue ser mais mordaz em sua crítica aos valores morais vigentes então, assim como menos cínico, apresentando-se francamente simpático ao protagonista. Da mesma forma não se escusa em mostrar uma mulher disposta, mesmo que extremamente fragilizada, a levar a frente sozinha a gravidez. A referida utilização conjunta de flashback e voz over, apresenta a narrativa e, ao mesmo tempo, faz alguns comentários sobre ela a partir da perspectiva temporal posterior. Caso o filme se encerasse com a decisão de Jordan de não entregar Graham à Polícia, sentindo-se entre chocado e admirado com o relato do mesmo, o filme certamente seria mais moderno, tanto em termos de forma – caracterizando o final com uma “abertura” e “inconclusão” - típica de alguns filmes do cinema europeu da década seguinte, quanto em termos de conteúdo – já que não recorreria a nenhum tipo de necessária condenação social do infrator, um dos pré-requisitos típicos do então vigente Código Hays. Tanto, O’Brien com um tipo físico que o distancia grandemente do padrão da época, como a beleza singela de Lupino e a ingenuidade da personagem infantilizada vivida por Fontaine são indispensáveis na construção dessa produção peculiar e modesta. Certas feministas certamente verão o filme com maus olhos, já que todos os conflitos surgem a partir do momento em que Eve não consegue ter uma criança e acaba deslocando toda sua carga afetiva para o lado profissional, só conseguindo despertar para o lado emocional após a eminente morte do pai. O final, embora flerte com uma reaproximação entre Graham e Phyllis, é extremamente ambíguo para ser considerado feliz, mesmo com a absolvição do primeiro. A liberdade apresentada pelos poucos filmes que Lupino dirigiu – um outro apresenta o estupro como temática – deve-se, em grande parte, ao fato de ter seu marido (Collier Young) como produtor, além de roteirista. RKO. 80 minutos.

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