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quinta-feira, 20 de março de 2014

nota de rodapé de um texto porreta

Iniciando a revisão da tradução de uma indiana porreta, Ira Bashkar, que faz a crítica mais sistemática que até hoje meus olhos pousaram, sobre a "poética histórica" e o "neo-formalismo" defendidos por David Bordwell, autor que finalmente começa a ser traduzido no Brasil.

Havia registrado que iniciara a tradução do mesmo num artigo que foi publicado no mínimo dois anos atrás...o que era meia-verdade, pois mal havia iniciado...era mais uma carta de intenções. Bashkar não escreve um inglês fácil e fluido como seu criticado e peca pela redundância, mas os argumentos são muito bem defendidos e não destituídos de uma verve apaixonada em sua crítica.

Fica aqui a nota de rodapé, última que traduzi, embora seja uma das primeiras  (e, por sinal, ainda não revisei, rs) do texto:

É intrigante que Bordwell não se refira a Bakhtin em nenhum dos dois textos nos quais define e discute a “poética histórica”, particularmente quando se leva em conta que uma de suas críticas mais contundentes contra  a “Grande Teoria” dos teóricos SLAB (aqueles que empregam princípios baseados na semiótica Sausurreana, na psicanálise lacaniana, no marxismo althusseriano e na teoria textual barthesiana e aqueles cuja obra Bordwell denomina “acronimicamente e um pouco acrimoniosamente, teoria SLAB” é que não fizeram “o dever de casa na história dos conceitos [dos autores em questão] e que seu próprio relato da história da crítica em Making Meaning é rigorosamente histórica. Cf. Bordwell, 1989a: 385, 388 e Bordwell 1989b: cap. 4, respectivamente. Na sua crítica ao formalismo russo, Bakhtin propõe como corretivo uma “poética sociológica” da arte como “poética histórica” enquanto corolário necessário. De acordo com os autores, a distinção entre uma “´poética teórica sociológica” e uma “poética histórica” é “mais técnica que de natureza metodológica. E a poética teórica necessita ser histórica.” Que as duas sejam fortemente imbrincadas é óbvio no desenvolvimento de suas formulações ao longo do livro, mesmo que tenham considerado de maneira evidente que “o papel da poética histórica é preparar a perspectiva histórica para as definições generalizantes e sintéticas da poética sociológica.” Podemos, portanto, assumir que os interesses sociais, culturais e ideológicos da “poética sociológica” modulados com uma perspectiva histórica seriam centrais a uma “poética histórica” como concebida por Bakhtin e Medvedev. Cf. The Formal Method (1978: 30-1) para as definições. Que Bakhtin tenha consistentemente se interessado por uma “poética histórica” da literatura, reflete-se igualmente em outra obra sua.  Seu ensaio “Forms of Time and of the Chronotope in the Novel” possui como subtítulo “Notes Toward a Historical Poetics”, onde tenta “uma evolução da forma a ser definida”. Cf. respectivamente Bakhtin 1994: 84 e Bakhtin e Medvedev, 1978: 31. O sentido de história bakhtiniano, portanto, refere-se não somente ao tempo e contexto contemporâneos, mas a um inteiro peso do passado enquanto reverberadores  em um texto tanto formal como tematicamente.

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