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sexta-feira, 21 de março de 2014

Filme do Dia: A Sala de Música (1958), Satyajit Ray

A Sala de Música (Jalsaghar, Índia, 1958). Direção: Satyajit Ray. Rot. Adaptado: Satyajit Ray, baseado no romance de Tarashankar Bannerjee. Fotografia: Subrata Mitra. Música: Ustad Vilayat Khan, Asis Kumar, Robin Majumder & Dakhin Mohan Takhur. Montagem: Dulal Dutta. Dir. de arte: Bansi Chandragupta. Com: Chhabi Biswas, Padma Devi, Pinaki Sem Gupta, Gangapada Basu, Tulsi Lahiri, Kali Sarkar, Roshan Kumari, Sardar Akhtar.
Nas primeiras décadas do século XX, Huzur Biswambhar (Biswas) é um membro da realeza indiana em franco declínio. Velho e decadente,  ao escutar o som de uma música e saber que se trata da inauguração da sala de música de um novo rico da região, Mahin Ganguly (Basu), passa a recordar os últimos dias de sua riqueza. Sem o menor tino para os negócios e preocupado apenas com a música e com os cavalos, Huzur organiza uma festa, enquanto sua esposa Mahamaya (Devi), preocupada com as extravagâncias do marido, prefere visitar o pai adoecido, levando consigo o filho adorado de Huzur, Khoka (Gupta). À festa, que pretende ser uma demonstração de força perante Mahin, que organizava a sua no mesmo período, ele ordena que não faltem a esposa e o filho. Porém, no retorno o barco acaba afundando e os dois morrem. Isolado do mundo desde então, ele recebe a visita de Mahim, que lhe convida para uma festa em que se apresentará a dançarina (Akhtar) que é a última sensação do momento. Huzur recusa e acaba contratando a famosa dançarina para sua casa, reabrindo a sala de música, fechada desde a morte dos familiares, gastando o último dinheiro que possui. Após a apresentação, impede que Mahim faça sua oferenda a dançarina, fazendo a sua. Gozando do momento de vitória sobre o adversário, embalado pelo álcool, Huzur se entusiasma e parte para uma corrida em seu cavalo que lhe provocará a morte.
Poucas vezes a decadência e a vontade de poder esteve tão bem retratada no cinema quanto nesse filme, graças a interpretação magistral de Biswas (os últimos dias de seu Huzur, evocam o Kane solitário em Xanadu) e de todo o elenco de apoio, assim como a beleza austera da composição das imagens. Embora, como na trilogia de Apu, a narrativa deixe evidente a influência literária sobre a construção da mesma, paradoxalmente o filme não deixa de ser plenamente cinematográfico, seja nos magistrais ângulos da seqüência inicial ou nas não menos belas panorâmicas, como a final. Igualmente, como na trilogia, a profundidade das emoções nunca se dão desligadas da materialidade do mundo (no caso de Apu as barreiras para ascender socialmente; aqui o prestígio social nunca pode ser gozado plenamente sem a renda que lhe sustente). Os planos monumentais, como o do cavaleiro que aproxima-se da fortaleza de Huzur, logo no início do filme, podem sugerir uma aproximação com o cinema de David Lean, embora em Ray, ao contrário do cineasta britânico, a beleza das imagens nunca deixa em segundo plano a vitalidade de seus personagens – no caso, serve para ressaltar o isolamento do personagem. Entre seus melhores momentos se encontra o que Huzur volta a sala de música coberta pela poeira e povoada por morcegos ou, pouco depois, quando brinda aos seus ancestrais e acaba por descobrir uma aranha sobre o joelho de seu ilustre bisavô. A trama, situa-se em um mundo completamente diferenciado das crônicas sobre personagens em situação de pobreza com que o cineasta é geralmente associado. Um retrato mais sutil da decadência aristocrática e da emergência de uma nova classe “sem tradição” se encontra em O Leopardo (1962), de Visconti. Aurora. 122 minutos.


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