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quinta-feira, 27 de março de 2014

Filme do Dia: Também Fomos Felizes (1951), Yasujirô Ozu




Também Fomos Felizes (Bakushû, Japão, 1951). Direção: Yasujiro Ozu. Rot. Orignal: Yasujiro Ozu & Kôgo Noda. Fotografia: Yuuharu Atsuta. Música: Senji Ito. Montagem: Yoshiyasu Hamamura. Com: Setsuko Hara, Chishu Ryu, Chikage Awashima, Kuniko Miyake. Ichirô Sugai, Chieko Higashiyama, Haruko Sugimura, Kuniko Ikawa, Zen Murase, Isao Shirosawa.
Noriko (Hara) é uma mulher de 28 anos que é cada vez mais pressionada pela família para se casar. Empenhada em sua profissão, ela nunca se posiciona a respeito. Seu irmão, Koichi, e sua esposa Fumiko  pretendem que ela se case com um próspero médico de 40 anos e anunciam o candidato para os pais. Sua mãe, sempre exigente quanto aos candidatos da filha, sente-se incomodada com a diferença de idade, mas acaba aceitando. Porém, a única pessoa que não demonstra maior interesse é a própria Noriko, que decide se casar com um viúvo que já possui um filho e partirá no dia seguinte para a distante província de Akita.
Poucos realizadores conseguiram captar de modo tão intenso, a partir de situações tão banais, a realidade doméstica familiar quanto Ozu. Seu terno retrato dessa família japonesa não obscurece conflitos geracionais que dizem respeito a própria história contemporânea do país e, nesse sentido, desfazem uma construção da crítica a respeito da pretensa continuidade ad infinitum do mesmo. O controle social ainda é demasiado intenso com relação à vigência dos costumes, o que fica demonstrado na ampla rede de fofocas que permeia a situação de Noriko do início ao final. Porém, se Noriko não chega a confrontar amplamente os códigos sociais de seu tempo, tais como as personagens dos filmes de Mizoguchi, ela não deixa de representar aqui uma nova mentalidade feminina, não satisfeita apenas com o desejo de se casar e tampouco disposta a abrir de suas opções por conta da pressão familiar – logo quando sabe de sua decisão a mãe, extremamente frustrada, não deixa de afirmar “sobre o quão pouco ela pensara na própria família.” Porém Ozu constrói esse tensão sem se afastar de um extremo minimalismo e contenção emocional de personagens – Hara, por exemplo, que vive com brilho a protagonista, consegue expressar timidez e feminilidade, mas igualmente determinação. Percebe-se, aos poucos, que uma sociedade ainda extremamente patriarcal começa a ceder diante da influência crescente dos valores ocidentalizados – algo que também fica patente na ira dos dois filhos pequenos de Koichi quando percebem que o pai não trouxera o brinquedo que ansiavam e acabam desaparecendo de casa (numa das mais belas sequências do filme). Ao casal mais velho, os pais de Noriko, resta suspirar e desejar felicidade para um casal de noivos que entreveem de sua residência, como acreditam que conquistaram nesse delicado momento em que tanto o filho quanto a filha pretendem partir para suas próprias moradias. Destaque para a trilha musical, que enfatiza ainda mais a atmosfera amena e cotidiana do filme. Ao trabalhar com os sentimentos de uma família e seus agregados, suas aspirações, desejos e frustrações de modo tão tocante e emocionalmente autêntico, assim como a constante tensão, ainda que em Ozu mais subliminar, entre individuo e sociedade, o cineasta sem dúvida deve ter influenciado realizadores como Edward Yang em painéis  familiares também intensos tais como As Coisas Simples da Vida (2000), com destaque para a não menor ênfase às digressões humorísticas das crianças igualmente presentes em Yang. O título em português, inapropriadamente melodramático, não faz jus ao estilo de Ozu, tendo sido certamente melhor traduzido para o inglês como Early Summer. Shochiku. 124 minutos.


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