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segunda-feira, 17 de março de 2014

Filme do Dia: Performance (1970), Nicolas Roeg & Donald Commel


Performance (Reino Unido, 1970). Direção: Nicolas Roeg & Donald Commell. Rot. Original: Donald Commel. Fotografia: Nicolas Roeg. Música: Jack Nitzsche. Montagem: Antony Gibbs & Brian Smedley-Aston. Dir. de arte: John Clark. Cenografia: Peter Young. Figurinos: Emma Porteus. Com: James Fox, Mick Jagger, Anita Pallenberg, Michèle Breton, Ann Sidney, John Bindon, Stanley Meadows, Allan Cuthbertson.
        Gangster que se compraz em espancar suas vítimas, Chas (Fox) decide fugir do universo violento em que vive, ameaçado que se encontra por seu próprio grupo, para se refugiar no improvável inferninho que é a morada do misterioso Turner (Jagger), um astro de rock em franca decadência e paraíso das drogas e do amor livre, compartilhado por Pherber (Pallenberg) e Lucy (Breton). Lá vivencia experiências de drogas que transformam sua percepção. A farra, no entanto, não dura muito tempo. A gangue identifica o local onde se encontra, numa de suas ligações.
           O filme de estréia de Roeg já apresenta as qualidades e fissuras que caracterização sua obra como um todo. Ousado, ele envereda por um thriller criminal até próximo de sua metade, quando desconstrói em grande parte as convenções do filme de gangster e cede espaço a própria revolução nos costumes provocada pela nova maneira de encarar o sexo (e os papéis de gênero), as drogas e o rock que o seu protagonista, mesmo desconfiado à princípio, acaba embarcando após consumir cogumelos. Talvez o que mais chame a atenção no filme, produzido dois anos antes de seu lançamento devido a um boicote do próprio estúdio, seja a sagaz desconstrução da figura arquetípica do macho no cinema, o psicótico durão que espanca com prazer e sua literal mescla com o oposto, a figura andrógina de Jagger, proporcionada a certo momento tanto pela bela fusão dos dois rostos (uma variação inventiva dos efeitos conseguidos por Bergman em Persona, ainda que sua referência deva ter sido Kenneth Anger), apresentando de forma quase didática o quanto os extremos opostos podem se encontrar mais próximos do que imaginam.  No surpreendente final, novamente a ambiguidade entre os dois tipos é apresentada. As cenas que representam a alucinação por drogas são grandemente influenciadas pela obra de Anger (Commel chegou a ser ator de um dos filmes do realizador) e sua montagem é um trabalho de uma dinâmica provavelmente sem paralelo no cinema britânico comercial de então. Claro que tudo isso não esconde a faceta menos interessante e que logo e tornará evidenciada na obra de Roeg: tudo parece se encontrar a um mero passo do mero maneirismo visual que envelhece, inclusive, mal; isso pode ser válido para filmes posteriores mais do que para esse ou Inverno de Sangue em Veneza (1973), sua obra-prima. Cammell se suicidaria em meados dos anos 90, após ter um de seus filmes remontado pelos produtores. É curioso como fortes referências ao universo caleidoscópio de Jorge Luís Borges se encontrem presentes tanto nesse, considerado como o canto de cisne dos filmes que abordam a swinging London quanto num dos primeiros a tirar partido de sua pujança estética, Blow-Up (1966), de Antonioni.  Jagger, a determinado momento, interpreta a bela Turner´s Song: Memo from T,sendo que o momento em que canta mais parece um videoclipe que se imiscui repentinamente sobre a narrativa, quase como numa alusão paródica aos momentos que as canções eram interpretadas nos musicais clássicos hollywoodianos.  Mesmo não tendo sido creditada como tal, Pallenberg é tida como co-roteirista. Goodtimes Enterprises para Warner Bros.105 minutos.






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