Filme do Dia: Women Make Film: A New Road Movie Through Cinema 5 (2018), Mark Cousins
Women Make Film: A New Road Movie Through Cinema - 5 (Reino Unido, 2018). Direção Mark Cousins. Montagem Timo Langer.
12. Adultos-Crianças. A narradora afirma que
crianças estiveram ausentes de uma grande quantidade de filmes de gênero. em Camelos Também Choram, a mãe de um camelo recém-nascido o rejeita, apesar das
tentativas dos criadores de aproximarem os dois. Em uma tenda, uma realidade
diversa se dá entre uma mãe uma criança que é ninada ao som de sua canção. Em Home,
a mãe do filme de Ursula Meier, leva o filho a andar de patins plena madrugada,
quando a estrada se encontra deserta (e segura), buscando criar um vínculo com
ele. Em Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, o protagonista vivido por
Jeremy Renner se desespera ao ver que o cadáver de uma criança mutilada é o que
lhe vendera dvds pouco antes. Em Uma Adolescente de Verdade (1976),
filme de estreia (e banido) de Catherine Breillat, uma jovem anda pelos
arredores de sua casa, com uma calcinha entre os joelhos, enquanto a mãe
prepara a refeição. No longa subsequente a Home, Minha Irmã (2012)
Ursula Meier explora uma tentativa de aproximação de um garoto de quem acredita
ser sua irmã (é sua mãe), a partir do dinheiro que rouba em um polo de esqui
frequentado por ricos. Tentativa mal sucedida. Em seu extremo oposto, mãe e
criança tomam banho juntas em uma banheira em Alemanha Mãe Pálida. Um
garoto (o mesmo que surge em Persona) para criar o elo com sua mãe, tenta se
transformar nela, através da maquiagem e adereços, em Jogos da Noite (1965), de Mai Zetterling. Dois órfãos em
meio a um rigoroso inverno, a procura do pai
em Melody for a Street Organ (2009), um filme de Kira Muratova,
que segundo a narradora, é completamente composto de travellings e gruas. Já em
Inverno da Alma (2010), de Debra Granik, uma garota tem que arrancar
membros do próprio pai morto e enrijecido em um lago. No curta animado The
Owl who Married a Goose (1974), fazendo uso da incomum técnica da pintura
em silhueta, mamãe ganso e seus filhotes recém saídos dos ovos, vão nadar,
enquanto papai coruja fica sozinho. Na Alemanha nazista do já citado (em outro
episódio) Lore, uma mãe entrega o filho para que a irmã mais velha dele
se torne sua responsável. No também já observado Rio Congelado (2008),
um maçarico (dado ao filho pelo pai ausente) passa a ser o objeto que dirá
sobre a constância ou não do elo entre mãe e filho. Uma mãe banha a filha, a
pedido da primeira, em Mossane (1996), de Safi Faye. Mais significante
que esse dado é o conjunto de texturas que se consegue extrair da imagem
bastante parcial desse banho. E depois a mãe efetua um corte com o antigo
tratamento que dispensava a filha, alertando que já não é mais uma criança, e
que gostaria de trata-la como amiga agora. O filho em busca de apoio em XXY (2007), de Lucía Puenzo,
e escuta em troca não possuir talento. Em Precisamos Falar Sobre Kevin (2011),
de Lynne Ramsay, o elo entre mãe e filha se encontra estropiado. Não há
palavras quando a segunda visita a primeira na
prisão. Em Sherrybaby (2006), de Laurie Collyer, o próprio trauma
da disrupção é apresentado: um pai, que estaria acolhendo uma filha em crise,
passa a abusar de sua fragilidade. Enquanto Rodava o Filme (1981), da
romena Xhanfize Keko, apresenta um garoto desesperado quando nazistas levam seu
pai, nos anos 1940. Quando a criança é morta, pela insistência, diante do pai,
ficamos sabendo que se trata de uma filmagem, e pai e filho no filme, também o
são na vida real (ao menos a do filme), criando um elo até então inexistente,
após o pai assistir essa morte fictícia.
No curta efetivamente curto (4 minutos) britânico A Portrait of Ga
(1952), Margaret Tait filma sua mãe de perspectivas pictóricas. 13. Economia.
O primeiro exemplo do princípio, aplicado à estética, é uma cena de Évolution
(2015), de Lucile Hadzihalilovic. Uma casa sem qualquer adereço, rústica,
fotografada por uma paleta de cores também limitada. Uma mulher cozinha,
enquanto o filho chega do oceano anunciando ter visto um garoto morto. Até sua
excitação ao contar à mãe parece contida. Retorna a Inocência (visto em
episódio anterior), da mesma diretora, filmado uma década antes, e seu jogo de
imagens a associar doença, morte e inverno, a partir de planos filmados em
espaços distintos. Yo, la Peor de Todas (1990), de Maria Luisa Bemberg,
em que uma cena de traição sobre o comportamento de uma freira ganha um cenário
austero, cujas cores se confundem ocasionalmente com os figurinos dos atores. A
economia de recursos estéticos de uma cena de explosão no já referido, em
episódio anterior, Bom Trabalho. Já em The Eternal Breasts
(1955), de Kinuyo Tanaka (realizado no mesmo ano do anteriormente visto The
Moon has Risen), a economia é narrativa. De um plano de uma mãe enternecida
com suas crianças, em meio a uma situação cotidiana, passa-se para o pedido de
divórcio no plano seguinte. Uma Canta, a Outra Não faz uma elipse
temporal de dez anos, e apresenta as amigas agora vivendo realidades bem
disntintas. Uma delas casada, em uma árdua rotina e vida rural. Be My Star
(2001), de Valeksa Grisebach, transforma uma cena que poderia durar uma dezena
de minutos, em apenas dois: uma campainha toca; um casal adolescente conversa
sobre sentimentos ainda serem correspondidos, seguida por uma cena de sexo
entre os dois. Tudo com interpretações desdramatizadas. A garota de trajetória errante, anteriormente
observada, em Os Renegados, sai de um comércio, com um homem não
anteriormente visto no filme. Após um travelling. E o movimento da câmera
parece assinalar o constante movimento na vida da personagem. E o rapaz com
quem falava é deixado assim que ela consegue a carona de um carro. Em um único
plano sem cortes, e que finda com a imagem de uma senhora sentada em um banco,
de bengala – a atenção de Varda para as “não personagens” de seus filmes, algo
presente desde o seu filme de estreia. Com possibilidade de se ler que as ações
vivenciadas pela jovem no momento presente, tornam-se motivo de contemplação,
memória e nostalgia no caso da velha senhora. A economia na representação do
amor, já vista há pouco no filme de Grisebach, retorna agora em um encontro da
protagonista de Appropriate Behavior (2014), vivida pela própria
diretora do filme, Desiree Akhavan, com um casal, pulando-se para o momento em
que as duas mulheres já correm felizes pela rua e o trisal momentâneo chega a
um apartamento. 14. Montagem. A orquestração dos planos, todas as
reações e emoções colhidas no momento certo, tal como pedia Pudovkin décadas
antes em Middle of Nowhere. Trata-se de um julgamento e em meio a esse,
há uma denúncia de sexo entre o julgado e uma guarda. E, cereja do bolo, após
todo o concerto de emoções (vergonha, decepção) colhidos dos personagens em
primeiro plano, o final da sequencia em que a montagem nos faz ver o momento em
que o marido, retirado da sala volta-se para olhar à esposa, mas a montagem
corta para essa e o plano seguinte já é posterior ao contato visual, e apenas
observamos parcialmente seu rosto. Em Sambizanga (1973), de Sarah
Maldoror, tal orquestração se encontra a serviço de uma cena de tortura. E
também para uma disputa a vela em Olympia Parte II – Festa da Beleza, de
Riefensthal. Um terceiro exemplo de montagem à serviço de uma cena de ação
provém da tensão de soldados vigiados por todos os lados em Guerra ao Terror. Em Le Lit, de Marion Hänsel, as mesmas mãos, a mesma mesa, e
comida. Mas um corte faz divisar dois tempos. O passado, em que havia uma mão a
tocar a da protagonista e o presente, em que essa mão desaparece, e escutamos o
arfar do moribundo que se encontrava a seu lado trocando carícias então. Um
soldado, acamado, relembra episódio de diversão e confusão com uma mulher, ocorridos no mesmo dia, em Squandered
Sunday (1969), de Drahomíra Vihanová. Observamos então as mesmas mãos, em
situações de deleite, agora na trivialidade amargosa do cotidiano banal. Em The
Girls (1968), de Mai Zetterling, a montagem conecta quatro pessoas, duas
delas apenas estão ao telefone. Enquanto a personagem de Eva Mattes pare sua
criança em Alemanha, Mãe Pálida, bombas são lançadas dos aviões. Os laços
díspares proporcionados pela montagem são evidentes. Uma traz a vida, os outros
a destroem. No documentário canadense Les Filles du Roy (1974), de Anne
Claire Poirier, imagens de morte e de nascimento novamente se confundem. Assim,
como a decepção com o que havia sido prometido para os filhos da depoente.
Simples e profunda, segundo a narradora, é o exemplo de corte em Marseille,
que transporta a história para mais de mil quilômetros de distância, de
Marselha à Berlim. São todos exemplos do
que a montagem pode fazer, para além da ação.
No exemplo seguinte, The Loveless (1981), longa de estreia de
Kathryn Bigelow, a montagem não se encontra a serviço do realismo, como nos
exemplos anteriores, nem para outras dimensões mais subjetivas, como nos três
exemplos imediatamente anteriores, mas em uma espécie de banquete sensorial.
Não se trata de uma Madeleine exatamente, mas é um pão rústico tradicional, que
provoca uma viagem do tempo, em Anna’s Summer. A montagem a serviço de
realizadoras experimentais, como em Go!Go!Go (1964), de Marie
Menken. Uma Nova York observada através de uma montagem ultra-acelerada, da
perspectiva de uma pintora. A narradora indaga qual filme poderia resumir as
peripécias da montagem observadas ao longo do episódio. E o escolhido é O
Arco (1968), de Shu Shuen Tong, marco moderenista do cinema chinês, em que
observamos, dentre outras cenas, o fio da memória a partir dos fios de teares. Hopscotch
Films para Dogwoof. 60 minutos.
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