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domingo, 21 de janeiro de 2018

The Film Handbook#153: Robert Bresson

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Robert Bresson
Nascimento: 25/09/1901, Bromont-Lamothe, França
Morte: 18/12/1999, Paris, França
Carreira (como realizador): 1934-1983

Os filmes de Robert Bresson são bastante distintos de qualquer coisa no cinema. Em sua determinação desdenhosa de excluir elementos frequentemente essenciais ao meio - espetáculo, drama, interpretação - Bresson seguiu uma visão do mundo unicamente pessoal que permanece consistente, independente da natureza de seu tema.

Tendo abandonado planos de ser pintor, dirigiu um curta atipicamente cômico (Affaires Publiques) e escreveu diversos roteiros para outros diretores. Em 1943, após um ano na Alemanha, prisioneiro de um campo de guerra, dirigiria seu primeiro longa-metragem, Anjos do Pecado/Les Anges do Péché>1. Apesar de dizer respeito à redenção espiritual (as tentativas de uma jovem freira de salvar a alma de uma assassina somente são bem sucedidas com sua própria morte) antecipar o tema da salvação em sua obra posterior, seus atores profissionais e estilo visual elegante e simples reapareceria somente em As Damas do Bosque de Boulogne/Les Dames du Bois du Boulogne. Fazendo uso por completo dos diálogos de Giraudoux e Cocteau (o diretor a partir de então seria seu próprio roteirista), esses filmes são, apesar de tudo, reconhecíveis como bressonianos, em sua ausência de naturalismo.

O estilo maduro de Bresson foi desenvolvido nos seus três filmes posteriores, todos a respeito dos esforços para se encontrar paz espiritual. Em Diário de um Pároco de Aldeia/Journal d'un Cure de Campagne, um vigário passa a aceitar a própria morte iminente através da conversão dos outros; em Um Condenado à Morte Escapou/Un Condamné à Mort s'est Echappé>2, a fuga de  um prisioneiro capturado pela Gestapo é não somente dos confins de sua cela mas de seu próprio desespero e isolamento; em Pickpocket>3. um obsessivo ladrão compreende os mistérios da vida somente quando seu próprio senso de superioridade é abalado e se descobre amando outra pessoa. Mais notável de tudo, no entanto, não é a ênfase sobre a redenção conquistada através da comunicação e auto-sacrifício, mas a pureza austera do estilo de Bresson. Os intérpretes não professionais permanecem planamente inexpressivos, facial e verbalmente; a câmera evita a beleza pictórica para criar um mundo abstratamente atemporal através de observações destacadas e detalhadas de mãos, faces e objetos; sons naturais, mais que música, são auxiliares de sentido; enquantoa a narrativa é destituída de clímaxes e elipticamente fragmentada.

Ao rejeitar o realismo e a caracterização convencionais, Bresson revelou uma fascinação não pela psicologia humana mas com a capacidade da alma de sobreviver em um mundo de crueldade, dúvida e aprisionamento. Os diálogos perfunctórios trocam e se repetem alternadamente entre a corte e a cela em O Processo de Joana d'Arc despindo os elementos políticos e históricos da história. A Grande Testemunha/Au Hazard, Balthazar>4 e Mouchette, a Virgem Possuida/Mouchette>5, no entanto, foram convincentes retratos de santidade  nas mais improváveis vítimas, um asno e uma garota camponesa de 14 anos, respectivamente. A besta, do primeiro, maltratada e explorada por seus sucessivos donos, é uma testemunha muda dos vícios e injustiças do gênero humano; Balthazar, atingido durante uma operação de contrabando menor, dá seu último suspiro em um campo de ovelhas. Mouchette joga-se ao rio. Ao escaparem da miséria da existência, tanto o asno quanto a garota descobrem a graça na calma aceitação da morte. Milagrosamente, tais redenções espirituais surgem em uma cinzenta realidade material, uma indigente França rural povoada por alcóolatras, vagabundos, larápios, estupradores e gangues de motociclistas. E, desde que Bresson encontra uma bondade não sentimental e transcendente em figuras desarticuladas condenadas a vidas aparentemente destituídas de sentido, A Grande Testemunha  e Mouchette são seus filmes mais comoventes.

Com Uma Mulher Delicada/Une Femme Douce, retrato de um casamento fracassado que finda com a esposa tirando sua própria vida, Bresson se moveu para as cores, numa série de filmes centrados no suicídio. A despeito de sua sinceridade evidente, e seu estilo seguro, no entanto, tanto Quatro Noites de um Sonhador/Quatre Nuits d'un Rêveur quanto O Diabo, Provavelmente/Le Diable Probablement sofreram de um crescente pessimismo, personagens ainda menos simpáticos e pela ausência de compreensão da juventude parisiense pelo agora veterano realizador. O longamente planejado Lancelot do Lago/Lancelot du Lac>6 foi uma análise idiossincrática no amor transcendental ao final da época da cavalaria (os cavaleiros de Arthur buscando pelo Santo Graal em um mundo brutal repleto de corpos ensanguentados e ecos dos choques entre espadas e armaduras), mas foi L'Argent>7, a última obra-prima do realizador. Uma parábola brilhante sobre a corrupção, com uma nota falsificada passando de mão em mão, enquanto símbolo da maldade, teve seu clímax em uma admiravelmente não sensacionalista, mas verdadeiramente horrenda descrição de um assassinato em massa a machadadas.
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Um típico plano de Bresson - desdramatizar para focar no essencial - em A Grande Testemunha
É impossível não reconhecer tanto a originalidade quanto o estilo ascético de Bresson e o poder de sua visão essencialmente católica de um mundo pecaminoso oferecendo possiblidades perversas de redenção. Sua negação determinada do realismo psicológico convencional pode ser observada como superando a inabilidade do cinema de ir além das aparências superficiais; os rostos vazios, objetos inanimados e narrativas elípticas ocasionalmente implicam o mistério da alma. Mesmo em sua obra posterior, o controle firme sobre o mundo criado no cinema frequentemente parecem perturbadoramente esquemáticos e isolados das alegrias que podem acompanhar as situações de destino, na vida como no próprio cinema.

Cronologia
Desprezando o cinema em geral, Bresson parece vazio de influências fílmicas. A literatura, no entanto, é importante, sobretudo Bernanos e Dostoievski. Ele pode ser comparado, de forma tênue, com Bergman, Dreyer, Ozu e Terence Davies, tendo sido uma influência marginal em Schrader e Scorsese, dentre outros admiradorse. 

Leituras Futuras
The Films of Robert Bresson (Londres, 1969), org. Ian Cameron; Transcendental Syyle in Film (Los Angeles, 1972), de Paul Schader; Notes on Cinematography (Nova York, 1977), de Bresson.

Destaques
1. Anjos do Pecado, França, 1943 c/Renée Faure, Jany Holt, Sylvie

2. Um Condenado à Morte Escapou, França, 1956 c/François Leterrier, Charles LeClainche, Roland Monod

3. Pickpocket, França, 1959 c/Martin Lasalle, Pierre Leymarie, Marika Green

4. A Grande Testemunha, França, 1966 c/Anne Wiazemski, François Lafarge, Philippe Asselin

5. Mouchette, França, 1966 c/Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Paul Hebert

6. Lancelot do Lago, França, 1974 c/Luke Simon, Laura Duke Condominas

7. L'Argent, França, 1983 c/Christian Patey, Sylvie Van Den Elsen, Michel Briguet

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 35-7.

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