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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Filme do Dia: Zero Kelvin (1995), Hans Petter Moland

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Zero Kelvin (Zero Kelvin, Noruega/Suécia, 1995) Direção: Hans Petter Moland. Rot.adaptado: Lars Bill Lundholm&Hans Petter Molland. Fotografia: Philip Ogaard. Música: Terje Rypdal. Montagem: Einar Egeland. Com: Gard B.Eidsvold, Stellan Skarsgard, Bjorn Sundquist, Camilla Marteens.
Larsen (Eidsvold), rapaz sensível e apaixonado afasta-se da jovem (Marteens) que ama e de quem pretende tornar-se noivo para trabalhar para uma companhia de exploração de peles em geleiras distantes da Groenlândia. Quando lá chega com o representante da companhia terá que enfrentar uma tripla dificuldade: saudades da amada; a companhia duplica a quantidade de pedidos para o ano seguinte e, pior, a difícil convivência com os outros dois companheiros de choupana, especialmente Randbeck (Skarsgard), rude caçador de grande experiência. Após inúmeras dificuldades como a fuga do outro companheiro, o cientista Holm (Sundquist) e diversas brigas com Randbeck, inclusive uma provoca  o incêndio da choupana e de uma fuga nos limites de sua resistência física - retorna à civilização e à mulher. Sem dúvida alguma o mestre fotográfo Gabriel Figueroa estava mais que correto ao afirmar que o cinema inexiste sem o conflito, referindo-se a malfadada experiência de Welles no Brasil. O conflito permeia a trama do início ao final. Embora inicialmente o foco do conflito pareça se encaminhar para a clássica relação entre o homem culto e letrado frente ao rude - que no cinema rendeu, por exemplo, Zorba, O Grego e Dersu Uzala - , logo essa relação se mostrará ultrapassada por outra mais complexa. Ainda quando lida inicialmente com tal relação, o filme se distancia da condescendência, sentimentalismo e pieguice mesmo (como no caso do então recente O Carteiro e o Poeta) com que o tema geralmente vem sendo tratado ao longo da história do cinema.
           A relação que se constitui vem apresentar ao que o filme veio: trata-se  de uma fábula que reflete sobre a razão humana, e como toda boa fábula dispensa um realismo stricto sensu. Não há, por exemplo, qualquer referência explicíta ao período em que a trama se desenrola, embora pelo figurino possa-se situá-la entre o final do século XIX e o início do seguinte. Cada um dos três homens além de personagens parecem encarnar alegoricamente três tipos de razão. O jovem poeta que chega a "razão humanista", o cientista a "razão positiva" e o caçador a razão  "instintiva". O conflito maior ocorrerá entre a razão instintiva e a humanista, sendo o cientista sempre positivamente neutro em todos os conflitos iniciais e, posteriormente, permanecendo numa postura extremamente ambígua. Escarnando com  a veia literária, musical, enfim humanista de Larsen, Randbeck cantarola suas rudes canções desafinadamente. Ao contrário da gentileza com os animais de Larson, Randbeck é extremamente bruto, afirmando que só assim se obterá a disciplina. À excitação com que Larson lê e relê a única carta que recebeu de Gertrude, sua noiva, Randbeck contará sobre suas experiências em um prostíbulo.O desprezo que Randbeck nutre pela razão humanista não é algo gratuito. Chegara a apaixonar-se certa vez e sua noiva tentara transformá-lo em um cavalheiro. Flagrou-a posteriormente, no entanto, com um outro homem. O refinamento e a cultura pareceram-lhe, cada vez mais, como uma hedionda máscara para acobertar os instintos mais vis de forma mais socialmente aceita. Apesar de ganhar os conflitos iniciais e subverter qualquer esquematismo mais rígido, a razão humanista não exclui a técnica e logo demonstra sua "superioridade": Larson traz mais caça que os companheiros e logo adapta-se às adversidades do meio (rápido demais é bem verdade). Porém tem como ponto fraco o sentimento de amor - seja pela jovem Gertrude que o espera ou pela cadela Jane a quem tratará como um animal de estimação - que é impiedosamente posto à prova por Randbeck, com todo o apelo dos instintos viscerais do sexo e da morte. Em uma sessão mística Randbeck acredita ter visto Gertrude mantendo relações com um militar - o que impressiona bastante Larson que presenciara o efeito perturbador que um militar provocara sobre a jovem em um desfile cívico.

     Do início ao final do filme lutando para não ser seduzido pela razão instintiva de Randbeck, Larson subjuga-o em diversos momentos, porém só poderá ter completa segurança das virtudes de seu humanismo quando elimina literalmente o que corporifica a razão instintiva. Tal fato não deixa de servir de reflexão sobre a razão humanista e seus limites, em muitas situações menos humana que a instintiva e a positivista. Após o retorno e subsequente inocentamento do crime, Larson volta à sua existência burguesa anterior e agora provavelmente "oficializada" com Gertrude. Porém os ecos do instinto sobrevivem à morte de Randbeck e como uma consciência (ou sub) tardia prenunciam uma existência de completa inadequação e tédio no asséptico ambiente burguês (o extremo oposto do que costumava vigorar nas geleiras) de Gertrude. Larson parece constatar tardiamente no final o quanto de hipocrisia a sociedade teve de inventar para fazer com que a razão triunfasse sobre os instintos, e o amor romântico (inclusive em sua versão liberal) burguês sobre o sexo, para que só assim a sociabilidade pudesse ocorrer de forma menos traumática. As declarações de amor de Gertrude no final, depois de toda a experiência vivida por Larson, parecem aos seus olhos (e também aos dos espectadores) uma pálida sombra de antes da jornada de Larson pelo seu próprio e então desconhecido interior, como se um autômato houvesse substituído os gestos que antes eram de graça, leveza e sinceridade e agora ele pudesse trespassar o corpo/espírito de sua amada e percebe-la em toda sua superficialidade e mecanicidade aterradoras. Norsk Film/Sandrews. 113 minutos.