CONTRA O GOLPE CIVIL-MIDIÁTICO-JUDICIÁRIO EM CURSO E PELO RETORNO DA DEMOCRACIA

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Filme do Dia: Bela Aldeia, Bela Chama (1996), Srdjan Dragojevic


Bela Aldeia, Bela Chama (Lepa Sela, Lepo Gore, Servia-Croácia, 1996) Direção: Srdjan Dragojevic. Rot.Original: Vanja Bulic, Srdjan Bragojevic & Nikola Pekajovic. Fotografia: Dusan Joksumovic. Música: Laza Ristovski. Montagem: Petar Markovic. Com: Dragan Bjegorilic, Nikola Kojo, Velimir-Bata Zivojiniv, Dragan Maksimovi, Zoran Cuijanovic, Nikola Pekajovic, Dragan Petrovic, Milorad Mandic.
      As aventuras e desventuras de Milan (Bjegorilic), jovem sérvio antes, durante e depois da eclosão da guerra que assolou a ex-república iuguslava a partir de 1992: sua amizade desde a infância com Halil (Pekajovic), jovem muçulmano, que irá lutar do outro lado do front;  a separação da família, a união e a amizade que se forma no grupo - composto por homens de diversas nacionalidades e uma mulher, jornalista americana - que se encontra sitiado no túnel onde Milan e Halil, nunca entrarem com medo do bicho papão, túnel este inaugurado pelo Camarada Tito em 1980, onde ficam tão sedentos que todos bebem um pouco da urina de Milan; a fuga espetacular do túnel; a permanência em um hospital de país neutro, onde Milan anseia ardentemente a oportunidade de assassinar um jovem turco lá hospitalizado, etc.
       Ainda que descrevendo uma história que aconteceu na realidade, as preocupações do filme se encontram longe do realismo tradicional. Brincando sempre com a concepção realista tradicional, Bragojevic vai do realismo ao humor mais desbragadamente anárquico já na abertura - em que um documentário em p&b, que tem todos os indícios de ser “real”, se transforma em um pastiche colorido, que finaliza com Tito cortando a própria mão, quando vai inaugurar o Túnel, onde irá transcorrer a maior parte da ação do filme. Como a sutilmente explicitar o quanto de ilusório pode se encontrar sobre a capa aparente do “real”.  Entre o humor irônico, barroco e surrealista que se aproxima do de Kusturica em Underground (e, por tabela, de Fellini) até a morte ou o sofrimento de encontrar a mãe assassinada e enterrada no dia anterior quando retorna a vila onde morava (Milan) ou ter sua loja sumariamente incendiada (Halil) é um passo. O filme utiliza-se freqüentemente de uma forma original e irônica do flashback, conseguindo ás vezes ser hilário, às vezes perturbador, desconfortável e tocante - como na cena em que os amigos Milan e Halil discutem se haverá realmente guerra ou não, quando já sabemos não só que a guerra ocorreu, como ambos já se encontram mortos pela mesma. A narrativa passeia constantemente por quatro eixo principais de tempo: as aventuras de Milan e Halil na infância, seja temendo entrar no túnel, se aventurando a se aproximar de uma prostituta (que lembra Amarcord), ou ainda observando casais adultos fazendo sexo (como na hilária cena em que flagrando um casal fazendo amor, acabam sendo flagrados, como o casal, pela notícia da morte de Tito, fazem força prá chorar, mas não conseguem); a juventude dos amigos e sua discussão a respeito de se haverá guerra ou não, a separação traumática das famílias; a experiência da guerra, onde o filme mais se detém, concentrada no refúgio no  túnel, onde sofrem toda sorte de torturas física e psicológicas por parte dos muçulmanos e onde todos morrem, salvando-se apenas Milan e um companheiro intelectual que era apelidado de professor. E também onde Milan reencontra brevemente Halil, que fazia parte da ofensiva contra o túnel, e que é morto por uma bomba quando conversava com ele; a convalescença no hospital, onde após um esforço sobre-humano, Milan consegue se dirigir até o leito onde se encontra o jovem turco com um garfo - aproveitando a saída rápida das duas enfermeiras com o soldado de plantão para se divertirem em uma sala ao lado - com o intuito de matá-lo, seguido pelo professor que pretende detê-lo e, no final, morrem só com o esforço.  Ainda que pesado e com um humor extremamente ácido, assim como se detendo excessivamente no conflito do túnel, não há como negar força e originalidade proveniente dessa nova cinematografia e não há também como pedir algo mais leve de um país que sofreu tantas atrocidades e massacres tão recententemente. Para os espectadores que não se encontram profundamente inteirados do conflito civil na ex-Iuguslávia, muitas das alegorias com que Bragojevic trabalha permanecem obscuras. Prêmio de melhor filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cobra Film/NCR/RTS. 125 min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário