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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Filme do Dia: O Império dos Sentidos (1976), Nagisa Oshima

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O Império dos Sentidos (Ai no Corrida, Japão/França, 1976). Direção e Rot. Original: Nagisa Oshima. Fotografia: Hideo Itoh. Música: Minoru Miki. Montagem: Patrick Sauvion & Keiichi Uraoka. Dir. de arte: Jusho Toda. Figurinos: Masahiro Kato & Jusho Toda. Com: Tatsuya Fuji, Eiko Matsuda, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Kanae Kobayashi, Taiji Tonoyama, Shinkichi Noda, Kyôji Kokonoe.
O lascivo e mulherengo Kichizo (Fuji), conhecedor de todas as mulheres que trabalham no bordel que freqüenta, encanta-se pela insaciável e obsessiva Sada Abe (Matsuda), que não admite que ele possua mais relações com ninguém, a não ser quando por ordens dela própria. Tal intimidação não é mera retórica, como Kichizo descobre ao tentar fazer amor com sua esposa, Toku (Nakajima). Abe apenas sai praticamente do quarto onde fazem sexo para fazer sexo por dinheiro com um velho professor (Kokonoe), que sustentará a relação com Kichizo. A obsessão gradual acabará os levando a práticas de sado-masoquismo, com Sade estrangulando e cortando o sexo de Kichizo.
Muitas décadas antes de se tornar uma prática relativamente comum no cinema, Oshima inseriu algumas cenas de sexo explícito em um filme não pornográfico, o que o transformou num dos mais célebres filmes a causar polêmica em todo o mundo, sendo até hoje proibido no Japão (segundo o próprio Oshima em 100 Anos de Cinema Japonês). Porém, se o filme persiste interessante tal se dá menos por uma pretensa voyeurização das cenas de sexo de apelo imediato, recurso que muitos filmes posteriores fizeram uso, que por sua descrição de uma relação obsessiva em um mundo que possui o sexo como centro motor, incluindo na sua obsessão (reflexo da própria obsessão do cineasta no momento, assim como de todo um gênero do cinema japonês no plano mais amplo) personagens de velhos e crianças, habitualmente desvinculados da sexualidade no cinema, assim como na própria sociedade. Algumas de suas sequências mais célebres são a que um grupo de crianças e mulheres troçam com o membro flácido de um velho pedinte, assim como as de um velho em um restaurante que quando Sada mostra seu sexo afirma que o “seu” agora só serve para urinar ou que um casal de crianças foge de Sada até que ela agarre com força até machucar o pênis do menino. É justamente ao enfatizar no plano físico o que há trama apresenta de obsessivo sem maiores pudores que o filme ganha uma dimensão ímpar, bastante diversa da habitualmente retratada pelo cinema – onde mesmo personagens obsessivos sexuais apenas dão mostras de sua obsessividade a nível verbal ou no plano mais recatado da expressão do ato sexual. Nessa conjugação patológica entre desejo e morte até às últimas conseqüências, não é casual que a única seqüência de penetração explícita do filme ocorra justamente no momento da morte por sufocamento do protagonista. Oshima, que teve que recorrer a revelação do filme em laboratório francês, para burlar a censura de seu país enquanto o realizava, na trilha do sucess d´escandale provocado por esse filme, realizou uma seqüência anêmica, O Império da Paixão (1977), que apesar do título em comum, demonstra ser bem mais convencional. O próprio Oshima comenta, ao final, que se trata de uma história baseada em fato real ocorrido em 1936, o que também redimensiona a habitual visão pudica com que o cinema reflete sobre o passado, dada a liberalidade com que todos agem em relação ao sexo. Argos Film/Oshima Productions/Shibata Organization Inc. 105 minutos.