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domingo, 21 de janeiro de 2018

Filme do Dia: Carnaval Atlântida (1952), José Carlos Burle & Carlos Manga


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Carnaval Atlântida (Brasil, 1952). Direção: José Carlos Burle e Carlos Manga. Rot. Original: José Carlos Burle, Berliet Júnior & Victor Lima. Fotografia: Amleto Daissé. Música: Lyrio Panicalli. Montagem: José Carlos Burle & Waldemar Noya. Cenografia: Martim Gonçalves. Com: Oscarito, Grande Othelo, Cyl Farney, José Lewgoy, Eliana, Colé Santana, Renato Restier, María Antonieta Pons.
        O produtor Cecílio B. de Milho (Restier) pretende fazer uma grandiosa produção sobre Helena de Tróia. Ele busca a assessoria do respeitado professor Xenofontes (Oscarito), especialista em cultura grega, dispensando os talentos dos artistas locais (Othelo e Santana). Porém, os planos iniciais para um drama histórico se desfazem quando Xenofontes assume o papel de Helena, enquanto o farsante Conde Verdura (Lewgoy), que na realidade é um motorista de grã-fino, é Menelaus. O rigor acadêmico de Xenofontes enfraquece diante da sensualidade da rumbeira Lolita (Pons) e os artistas convencem  Cecílio a produzir uma revista musical autenticamente brasileira.

       Por mais despretensiosa que seja, essa chanchada suscita uma série de comentários sobre a cultura, na contraposição entre cultura popular e cultura clássica, cultura nacional e cultura estrangeira e um forte tom auto-referencial, ilustrando com o filme dentro do filme a própria precariedade dos meios de produção e o esforço criativo dos realizadores da Atlântida, companhia que selou sua identificação com o gênero. Embora a exaltação da cultura nacional e sua contraposição à cultura grega clássica, então referencial equivalente do que era considerado erudito, já estivesse presente nas produções realizadas durante o Estado Novo tais como Argila (1940), de Humberto Mauro, aqui a exaltação do nacional se faz mais pelo viés do deboche que da gravidade. Existe igualmente toda uma tentativa, por vezes bem sucedida, outras nem tanto, de apresentar os números musicais de forma interativa com o enredo, apelando-se muitas vezes ao recurso da representação dos sonhos dos personagens, embora a proliferação de subenredos e a organicidade da narrativa esteja longe dos melhores exemplares do gênero, como O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga. Manga, o mais talentoso realizador do gênero, realizou aqui sua estréia, dirigindo os números musicais. A seqüência mais inspirada e hilária é a da dramatização de Helena e Menelaus, momento em que fica evidente que o talento dos artistas (assim como da cultura brasileira) é menos a de pretensão à gravidade da Grande Arte que ao escracho. A dupla Grande Othelo/Oscarito aqui ainda não havia sido composta, já que cada um dos atores segue por trilhas narrativas diferenciadas. É notória a influência do humor das histórias em quadrinhos, na composição visual e até na nomeação dos personagens, como a paródia de Cecil B. DeMille, assim como a influência de seu humor sobre os programas televisivos até os dias de hoje. Na trilha canções que fizeram sucesso à época se mesclam a outras que perduraram como No Tabuleiro da Baiana.  Atlântida Cinematográfica. 95 minutos.