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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

The Film Handbook#147: Bernardo Bertolucci

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Bernardo Bertolucci
Nascimento: 16/03/1941, Parma, Emilia-Romagna, Itália
Carreira: 1962-

Os filmes de Bernardo Bertolucci parecem simultaneamente pessoais e estranhamente sujeitos a cairam nas graças da moda cinematográfica, apesar de não se poder condenar a consistência temática de sua obra nem, vinculado a isso, certos elementos quase autobiográficos em boa parte dessa.

Filho de um bem sucedido poeta, Bertolucci escreveu ele próprio poesia quando jovem. Após realizar filmes amadores em 16 mm em sua adolescência, trabalhou como assistente para Pasolini em Accattone; como retribuição, foi-lhe permitido dirigir A Morte/La Commare Secca>1, a partir de um roteiro de Pasolini. Ambientado, como Accattone, nas classes trabalhadoras suburbanas de Roma, e traçando uma investigação policial envolvendo o assassinato de uma prostituta, o filme mescla a fotografa do cinema noir, personagens realistas e um estilo narrativo a la Rashomon (as horas finais da vítima são descritas por várias testemunhas) com efeito garantido. Mais ambicioso, Antes da Revolução/Prima della Revoluzione>2, revelou o interesse de Bertolucci sobre os efeitos da política na vida cotidiana pessoal; vagamente inspirado em Stendhal, analisa a psicologia de um homem dividido entre a segurança de um casamento burguês e o compromisso com a ação radical. O mesmo conflito entre atitudes conformistas e revolucionárias voltou em Partner, uma atualização obscura e experimental do romance O Duplo, de Dostoievski; de longe mais bem sucedido foram  A Estratégia da Aranha/La Strategia del Ragno>3, adaptado de Borges e O Conformista/Il Conformista>4, a partir de Alberto Moravia, ambos concernentes ao fascismo. O primeiro é sobre a herança fascista, focando-se em um homem jovem que investiga o mistério da morte de seu pai, um herói da resistência, somente para descobrir que ele fora um traidor que trabalhara para Mussolini; o segundo lida com as raízes da ideologia ao analisar um covarde, que temeroso de ser homossexual, prova sua "normalidade" ingressando nas linhas do partido. Ao retratar protagonistas divididos por impulsos contraditórios, alguns deles edipianos, Bertolucci  parecia mergulhar em suas experiências enquanto italiano marxista; igualmente pessoal, no entanto, foi seu estilo visual crescentemente confiante, uma combinação de movimentos de câmera fluidos e exuberantes e cores atmosféricas, compostas com zelo pictórico por Vittorio Storaro.

Filmado de um modo completamente disperso, O Último Tango em Paris/Ultimo Tango a Parigi>5 foi um enorme sucéss de scandale no qual a política dá lugar ao sexo obsessivo e bruto entre estranhos. Uma vez mais, no entanto, os protagonistas são atormentados por conflitos interiores: o Paul de Brando entre o ódio por si mesmo pelo suicídio da esposa e seus sentimentos pela Jeanne de Maria Schneider, ela entre seu adorável noivo realizador (baseado engenhosamente em Godard) e o rompedor de tabus Paul. As imagens - o apartamento estéril e vazio que é local de refúgio da sociedade pelos amantes, o frio e enevoado pavimento onde Paul grita sua repugnância pelo mundo contra o ruído de um trem que passa - provocam impacto por sua crueza. O filme, no entanto, é prejudicado pela inabilidade de Bertolucci de criar uma personagem feminina redonda que se contraponha a colossal interpretação de corpo e alma de Brando.

Reconhecido agora como um dos diretores mais talentosos do mundo. Bertolucci foi capaz de comandar um elenco de estrelas internacionais para o épico 1900. Não obstante observar a história italiana da virada do século àLibertação em 1945 através dos olhos de um padrone aristocrata (Robert De Niro) e seu amigo camponês (Gérard Depardieu), ele dotou seu espetáculo político ingênuo com herois e vilões absurdamente estereotipados. La Luna>7, outro drama edipiano no qual uma cantora de ópera, acalentando sentimentos quase incestuosos por seu filho adolescente viciado em drogas, vivencia uma implausível reunião com seu pai, foi muito estilo para pouca substância. Inversamente, A Tragédia de um Homem Rídiculo/La Tragedia di un Uomo Ridiculo>8 foi um inteligente e discreto retorno ao filme político, invertendo o tema edipiano enquanto segue a busca cotidiana de um fazendeiro por seu filho, possivelmente vítima de um sequestro terrorista.

O pendor de Bertolucci pelo espetáculo atingiu seu pique com O Último Imperador/The Last Emperor>9, umaa  história épica do progresso do imperador Pu Yi de uma infância ausente de pai, mas mimada, dentro do Palácio Imperial a uma terceira idade enquanto jardineiro na China de Mao. De forma prejudicial, o exotismo das cenas iniciais (filmadas em locação na Cidade Proibida de Pequim e arredores) tendem a obscurecer os anos posteriores de Pu Yi, enfraquecendo portanto a análise de como um homem que possuía total confiança em sua própria superioridade divina pode se tornar um bom comunista.

A carreira de Bertolucci parece quase tão esquizofrênica quanto seus protagonistas: o melodrama pessoal competindo com a hipótese política, os floreios estilísticos redundantes com complexidade psicológica e narrativa. Certamente, sempre que ele sucumbe ao espetáculo épico, parece perder toda e qualquer perspectiva sobre o seu material. Infelizmente, mas talvez não surpreendentemente, é quando seus filmse são menos políticos e mais convencionais que ele justifica sua reputação e prestígio hoje internacionais.

Cronologia
Um verdadeiro cineáste, Bertolucci tem prestado sua homenagem a muitas influências - incluindo Vigo, Godard e Rossellini - em filmes e entrevistas; os neorrealistas, Buñuel, Welles Ophüls todos lançam sombras sobre sua obra, assim como certos pintores. Seu estilo visual parece ter influenciado Coppola, Scorsese e Schrader, dentre outros. 

Destaques
1 A Morte, Itália, 1962 c/Francesco Ruiu, Giancarlo De Roza, Vincenzo Ciccora

2. Antes da Revolução, Itália, 1964 c/Adriana Asti, Francesco Barilli, Allen Midgette

3. A Estratégia da Aranha, Itálai, 1969 c/Giulio Brogi, Alida Valli, Tino Scotti

4. O Conformista, Itália, 1970 c/Jean-Louis Trintignant, Dominique Sanda, Stefania Sandrelli

5. O Último Tango em Paris, Itália/França, 1972 c/Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud

6. 1900, Itália/França/Al. Ocidental, 1976 c/Robert De Niro, Gérard Depardieu, Burt Lancaster

7. La Luna, Itália/EUA, 1979 c/Jill Clybourgh, Matthew Barry, Thomas Milian

8. A Tragédia de um Homem Rídiculo, Itália, 1982 c/Ugo Tognazzi, Anouk Aimée, Laura Morante

9. O Último Imperador, China/Itália/Reino Unido c/John Lone, Joan Chen, Peter O'Toole

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 25-27.