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domingo, 8 de outubro de 2017

Filme do Dia: Dois Dias, Uma Noite (2014), Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne


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Dois Dias, Uma Noite (Deux Jeurs, Une Nuit, França/Bélgica/Itália, 2014). Direção & Rot. Original: Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne. Fotografia: Alain Marcoen. Montagem: Marie-Hélène Dozo. Dir. de arte: Igor Gabriel. Figurinos: Maïra Ramedhan Levi. Com: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée, Batiste Sornin, Pili Groyne, Simon Caudry, Lara Persain, Alain Eloy, Timur Magomedgadzhiev.

Recém-saída de uma depressão, Sandra (Cotillard) se encontra à beira de um colapso nervoso, pois sabe que a demissão de seu emprego foi decidida. Junto com a amiga Juliette (Salée) ela é convencida, a muito custo, a ir ao encontro do Sr. Dumont (Sornin), seu patrão e implorar para uma segunda votação entre a saída de Sandra e o ganho de bônus dos outros 15 empregados ou a permanência de Sandra, mas sem os funcionários ganharem o bônus. Sandra é instada por Juliette e pelo marido, Manu (Rongione) a ir atrás das pessoas e pressioná-las a votar a seu favor, gerando várias situações conflitivas e até mesmo servindo como estopim para a separação de um casal.

Os Dardenne, como sempre fazendo uso de estratégias marcadamente modernistas de recuo das fontes (melo)dramáticas convencionais, como o uso da trilha sonora e um naturalismo de tinturas que beiram o documental, tampouco deixam de flertar com a mesma, através de um trabalho de câmera que ressalta a aflição e a pressão sobre-humana sofrida pela protagonista -  sempre fazendo uso de sedativos e chegando a toma-los todos de uma vez próximo ao final – que ganha concretude através de longos planos-sequencias. Centrado em momentos de busca dos futuros votantes por Sandra o filme apresenta um aspecto da realidade social próximo dos do universo do britânico Ken Loach em relação à classe trabalhadora de seu país. Outro elemento que o aproxima do drama mais convencional é acompanharmos de uma proximidade quase táctil todas as ações a partir da perspectiva de Sandra. Ou ainda a já algo batida inclusão de uma cena no carro em que todos os passageiros cantam um rock (Gloria de Van Morrison). É o máximo que conseguem expressar em termos de contra-discurso dominante, se assim pode ser levianamente categorizado, já que ao contrário dos personagens de um Loach, os aqui abordados não são politizados. Como em Loach, no entanto, existem momentos de solidariedade comovente entre os colegas, sendo o mais efusivo deles o do rapaz que chora ao encontrar Sandra, dizendo-se arrependido por ter votado contra ela, ainda que eles sejam trabalhados de forma mais distanciada e menos emocionalmente manipulativa que em Loach, mais incisivamente ideológico e panfletário (Pão e Rosas como um dos exemplos mais arraigados). Seu final parece trair uma bandeira de positividade que parte do gesto ético de Sandra ainda que, ao mesmo tempo, fomente a possibilidade de lê-lo como também catártico – se Sandra não fica com o emprego, demonstra uma autoconfiança inédita até então que talvez soe pouco verossímil dada a instabilidade emocional excessiva dela ao longo do filme, suscitando paralelos com as mudanças súbitas orquestradas nos finais clássicos; aqui ainda se pode ter argumento de  equacionar a instabilidade excessiva com o período de indefinição sobre o futuro profissional dela, o que teoricamente poderia provocar uma mudança na postura da mesma. Por fim, outra “concessão”, se assim pode ser lida, a uma dramaturgia de maior apelo convencional, é a presença de uma estrela de renome internacional, Cotillard, algo inédito até então na filmografia dos realizadores, embora tal prática de mescla entre atores consagrados ou veteranos e amadores já tenha ocorrido  com demasiada frequência na história do cinema, como é o caso recorrente do Neorrealismo italiano. Les Films Du Fleuve/Archipel 35/BIM Distribuizone/Eyeworks/France 2 Cinéma/RTBF/Belgacom. 95 minutos.