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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Filme do Dia: Mulheres da Beira (1923), Rino Lupo & George Pallu


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Mlheres da Beira (Portugal, 1923). Direção: Rino Lupo & George Pallu.  Rot. Adaptado: Rino Lupo, a partir de conto de Abel Botelho. Fotografia: Artur Costa de Macedo. Montagem: Marie Meunier & George Pallu. Com: Brunilde Júdice, António Pinheiro, Mário Santos, Rafael Marques, Maria Júdice Caruson, Celeste Ruth, Duarte Silva, Marina Santos.

Ana (Júdice) é a bela filha de um homem pobre e viúvo, Pedro (Pinheiro). Certo dia um amigo de Pedro lhe dá o conselho dela ir à cidade mais próxima do povoado em que vivem, em Arouca, trazer pães para vender e ganhar alguns trocados. Ela fica entusiasmada com a experiência e bastante encantada com o mundo que não conhecia de Arouca, de mulheres que se vestem bem e dos homens fidalgos. No caminho para lá, desperta a paixão de André (Santos), um pastor de ovelhas. Em Arouca do Fidalgo da Mó (Marques). Sofrendo eventuais maus tratos do pai rude, Ana confessa a tia que irá fugir com o Fidalgo, que lhe prometeu uma vida de luxo no Porto. De fato, ele cumpre a promessa, mas em pouco tempo se interessa por outra mulher, que se torna sua amante e a expulsa de casa. Ela tenta voltar a casa do pai, mas é renegada igualmente por este ao saber que ela devolvera as joias que havia ganho de presente. Tenta ser aceita pelas freiras do convento, mas quando essas sabem dela se encontrar grávida, afirmam que não podem ficar com ela. Volta ao campo onde reencontra André, obcecado por ela desde então, mas afirma que já não é mais pura para se unir a ele, matando-se.

Produção que, mesmo com todo o previsível enredo marcadamente melodramático e fatalista já prenunciado em sua primeira cartela (“Menina não seja vacia/Recolha seus pensamentos/Que Beijos são impostura/Palavras leva-as o vento”) consegue construir, sobretudo em parte de sua primeira metade, uma tocante e sensível descrição do crescente entusiasmo e abertura de Ana para o mundo. É certo que o filme não constrói exatamente a contento a ambiguidade entre a legítima curiosidade diante de um mundo até então desconhecido – e o filme não se escusa em mostrar uma panorâmica do Porto quando a tia lembra o tempo que lá vivera e o quão infinitamente mais pujante era a cidade em relação a Arouca – e a oportunidade de deixar de ser subjugada pelo pai entrevista na fuga que une o casal com pretensões bem diversas às habitualmente românticas. A singeleza do momento inicial, quando ainda não se encontra posta a tessitura algo banal e engessada de sua trama e a forma delicada com que enquadra Ana em meio às paisagens de Arouca ou do campo chegam a ser evocativas do contemporâneo Nosferatu, de Murnau. O italiano Lupo, é um dos cineastas pioneiros mais profícuos do cinema português. No plano visual destaque para o momento em que Ana se encontra a janela e se observa algo da movimentação cotidiana ao fundo em contra-luz provocando um belo (e raro no período) efeito. É curioso como seu título dá pistas de que a postura de Ana poderia valer para as mulheres da região como um todo, e que sua tia, de certo modo, já prefigura algumas das situações vivenciadas (de outras ela ou o próprio filme se resguardam de apresentar) por ela. Salta aos olhos o quão mais bem resolvida é a narrativa, podendo inclusive imaginá-la como mais próxima do período sonoro, que suas equivalentes brasileiras. Trata-se de uma cópia restaurada e musicada em 2007. Invicta Film. 84 minutos.