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sexta-feira, 7 de julho de 2017

The Film Handbook#134: René Clair



René Clair

Nascimento: 11/11/1898, Paris, França
Morte: 15/03/1981, Neuilly, França
Carreira (como diretor): 1923-1965

Durante os anos 30, René Chomette - seu nome real - foi considerado um dos mais estilizados inovadores e satiristas. Hoje, no entanto, tanto o "realismo poético" quanto o humor exuberante sobre o qual sua reputação uma vez repousou parecem rasos e datados.

Crítico, poeta e ator nas séries de Louis Feuillade, o jovem Clair se alinhou com a vanguarda francesa dos anos 20. De fato, sua obra silenciosa pode ser observada como um dos ramos do movimento Dada: sua estreia, Paris Adormecida/Paris Qui Dort>1 foi uma fantasia cômica bizarra na qual um cientista louco utiliza um raio mágico para tornar a cidade imóvel; somente um grupo de estrangeiros, no topo da Torre Eiffel ou em um avião, permanecem conscientes para buscar o culpado e trazer Paris de volta à vida. Entreato/Entr'acte, apresentado durante o intervalo do balé dadaísta "Relâche". de Picabia, foi destituído de sentido, uma celebração frívola do movimento (acelerado ou lento), incluindo em seu elenco os artistas Marcel Duchamp e Man Ray e o músico Erik Satie; enquanto a farsa Um Chapéu de Palha da Itália/Un Chapeau de Paille d'Italie misturava sátira de zombarias gentis da burguesia com um estilo agitado de perseguições a la Mack Sennett.

Apesar de inicialmente Clair desdenhar do som, seus primeiros filmes sonoros lhe trouxeram enorme sucesso. Poucos diretores utilizaram do novo meio de forma tão entusiasmada: potencialmente comédias e romances realistas, Sob os Tetos de Paris/Sous Les Toits de Paris, O Milhão/Le Million (que termina com uma anárquica partida de futebol em um palco de ópera), A Nós a Liberdade/A Nous la Liberté>2 e Quatorze Juillet foram transformados em operetas líricas. Os personagens irrompem em canções e estranhos movimentos de balé enquanto a câmera fluida de Georges Périnal explora os cenários de estúdio faux-naive de ruas movimentadas e habitações superpovoadas. O estilo, na verdade, ofusca o conteúdo; de forma mais notável na elegante sátira sobre os efeitos desumanizadores da tecnologia fabril que é A Nós a Liberdade, artifício que frequentemente torna a comédia anêmica e moribunda.

Após o fracasso de O Último Milionário/Le Dernier Milliardaire, Clair partiu para a Inglaterra e dirigiu, para Alexander Korda, Um Fantasma Camarada/The Ghost Goes West, uma brincadeira engenhosa e óbvia sobre a ganância material: embarcando um castelo escocês rumo à Flórida, um magnata é assombrado por um ressentido espectro ancestral. O diretor então passou os anos da guerra em Hollywood, onde seu gosto pela comédia, fantasia e romance prosperaram. Paixão Fatal/The Flame of New Orleans um veículo  elegante e cheio de vida  para Marlene Dietrich; mais notável, no entanto, foi Casei-me com uma Feiticeira/I Married a Witch>3 sobre uma bruxa, queimada 200 anos antes, visitando a América contemporânea para destruir vingativamente os descendentes de seu perseguidor com maliciosa alegria. Porém em O Vingador Invisível/And Then There Was None, uma versão de O Caso dos Dez Negrinhos de Agatha Christie, o humor e o suspense são combinados de forma mais desajeitada.

O retorno de Clair a França o encontra em espírito mais sombrio. O Silêncio é de Ouro/Le Silence est d'Ot presta um tributo nostálgico ao cinema dos primeiros anos, enquanto Entre a Mulher e o Diabo/La Beauté du Diable foi uma empolada releitura da lenda de Fausto incluindo cenas de campos de concentração, e o afetado Por Ternura Também se Mata/Port des Lilas foi a análise de uma amizade condenada entre um alcóolatra solitário e uma jovem vadia. As Grandes Manobras/Les Grandes Manouevres>4, um romance tragicômico ambientado em uma guarnição militar de uma cidade provinciana em 1914, gera um raro poder emocional em Clair, seu retrato do amor frustrado pela hipocrisia burguesa aprofundado pelas atuações de Michèle Morgan e Gérard Philipe. Desde então, no entanto, ele afundaria ainda mais em esquecíveis comédias e filmes que parecem junções forçadas de histórias.

O pendor de Clair por uma elegância criada em estúdio e alegria lunática foram artisticamente limitantes. Seus filmes raramente estimulam emoções, tão distantes se encontram da realidade. De fato, sua impressão de serem datados derivam de um ênfase excessiva e superficial no estilo.

Cronologia
A mescla de sátira e fantasia de Clair influenciou Chaplin, notavelmente em Tempos Modernos; O Milhão influenciou Uma Noite na Ópera/A Night at the Opera dos Irmãos Marx. Seu posterior "realismo poético" confinado ao estúdio possui paralelos tanto com Carné quanto com o cinema do pós-guerra em geral; de fato, ele incorpora a herança tão detestável à Nouvelle Vague.

Leituras Futuras
French Cinema Since 1946, vol.1 (Londres, 1966), de Roy Armes.

Destaques
1. Paris Adormecida, França, 1923 c/Henri Rollan, Albert Préjean, Marcel Vallée

2. A Nós a Liberdade, França, 1931 c/Raymond Cordy, Henri Marchand, Paul Oliver

3. Casei-me com uma Feiticeira, EUA, 1942 c/Fredric March, Veronika Lake, Susan Hayward

4. As Grandes Manobras, França, 1955 c/Gérard Philipe, Michèle Morgan, Brigitte Bardot

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longma, 1989, pp. 54-5.

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