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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Filme do Dia: Sozinho Contra Todos (1998), Gaspar Noé


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Sozinho Contra Todos (Seul Contre Tous, França, 1998). Direção e Rot. Original: Gaspar Noé. Fotografia: Dominique Colin. Montagem: Lucile Hadzihalilovic & Gaspar Noé. Com: Philippe Nahon, Blandine Lenoir, Frankie Pain, Martine Audrain, Jean-François Rauger, Guillaume Niclaux, Olivier Doran, Aïssa Djabri.

1980. Um açougueiro (Nahon), órfão desde criança, procura reestabelecer sua vida após a prisão, onde tentara assassinar um homem que acreditara ter estuprado sua filha.. Ele volta a se casar e vai morar com sua esposa (Pain) na província, junto a sua sogra (Audrain). Desempregado e constantemente pressionado, ele agride fortemente a esposa grávida e parte para Paris. Lá sobrevive com dificuldades e possui planos de assassinar um gerente de supermercado (Niclaux) que o humilhou. Decide visitar a filha de sua primeira união, Cyntia (Lenoir), que vive em um reformatório. O reencontro com a filha provoca uma reviravolta em sua vida.

Estreia em longa-metragem de Noé que já apresenta aqui duas das características que chamariam a atenção de seu mais famoso Irreversível: o modo original de apresentar a narrativa e uma queda por personagens de visão de mundo bastante pessimista e mesmo escatológica. Talvez como consequência de ambos, o desejo de chocar um certo bom gosto burguês fomentador não somente das regras jurídicas, tal como expressas no primeiro diálogo do filme mas, por analogia,  estéticas; papel que no Brasil seria buscado, a seu modo, por Cláudio Assis, que abraça esse imaginário mundo cão com a mesma crueza em filmes como Amarelo Manga. Porém, enquanto em Assis tal imaginário ganha expressão gráfica a todo momento, aqui é sobretudo o produto da subjetividade do protagonista a partir da mais pura banalidade. Desde o início Noé deixa patente uma narrativa plenamente autoconsciente de si, marcada por referências diretas ou indiretas ao espectador, sobretudo na forma da voz off que faz as vezes da consciência ressentida do protagonista. Não se trata de um tema novo esse da apropriação de tendências fascistas, xenófobas e homofóbicas por parte de elementos que se veem a margem da sociedade. De certo modo é a versão de Noé para o que Scorsese já havia abordado em seu Taxi Driver(1976) (e que Shane Meadows voltará a se deter em seu This is England). Não faltam referências literalmente explícitas a frequência do protagonista a filmes pornôs que já estava presente, de modo mais simulado, no filme de Scorsese, enquanto demonstração de sua dificuldade de lidar com a afetividade. Aqui, no entanto, a paranoia ressentida e cínica ganha uma dimensão paradoxalmente também bastante lúcida na análise da hipocrisia social que se torna uma verdadeira filosofia de vida do personagem e talvez esse, mais do que qualquer um dos cacoete narrativos empregados, tais como o brusco reenquadramento da imagem acompanhado de um ruído sonoro semelhante a do estampido de uma arma, anunciando uma tragédia iminente, seja o grande trunfo do filme. Há um tom paródico que se nunca pousa de fato tampouco deixa de flutuar por todo o filme, desde a apresentação, através de fotos fixas que ajudam a contar a trajetória que entrelaça os dados biográficos do açougueiro com a história política francesa de modo sumariamente mecânico até a remissão da cena mais bárbara do filme e o momento de exaustão emotiva do personagem, indefeso e em lágrimas, ao som (não diegético) do Cânon em D Maior de Pachebel (também utilizado em O Enigma de Kaspar Hauser). Mesmo com suas várias intervenções na narrativa, o uso que Noé faz das mesmas é menos aleatório, já que associado ao próprio estado de espírito de seu protagonista, do que o de Violência Gratuita, por exemplo.  Nahon é veterano do cinema francês, tendo estreado em 1962 pelas mãos de Jean-Pierre Melville com  Técnica de um Delator. Canal+/Les Cinemas de La Zone/Love Streams Prod. para Rézo Films. 93 minutos.

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