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sábado, 1 de julho de 2017

Filme do Dia: O Som ao Redor (2013), Kléber Mendonça Filho


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O Som ao Redor (Brasil, 2013). Direção e Rot. Original: Kleber Mendonça Filho. Fotografia: Fabricio Tadeu & Pedro Sotero. Música: DJ Dolores. Dir. de arte: Julio Dornelles. Montagem: Kleber Mendonça Filho & João Maria. Figurinos: Ingrid Mata. Com: Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Waldemar José Solha, Maeve Jinkings, Irma Brown, Sebastião Formiga, Yuri Holanda, Clébia Souza, Lula Terra.

Num bairro elitizado do Recife, o cotidiano de seus moradores se modifica com a chegada de dois seguranças privados, comandados por Clodoaldo (Santos).  Os seguranças tem que lidar com os furtos de Dinho (Holanda), neto do patriarca Francisco (Solha), homem mais rico e influente das vizinhanças. Outro neto de Francisco, João (Jahn) confronta o primo, quando sua namorada, Sofia (Brown), tem o carro arrombado e o som furtado. Também mora próximo a dona de casa Bia (Jinkings), que combate as tensões do cotidiano com, dentre outros artifícios, a maconha que consegue com o entregador de água.

A virtuosa tessitura entre elementos oriundos do cinema de gênero (suspense e até mesmo terror) com uma crítica dos mecanismos sociais de uma sociedade excludente, elitizada e repleta de violência simbólica, para não dizer física (essa, em sua maior parte, excluída da tela, com exceção de situações periféricas, como a da vizinha que espanca Bia ou do garoto que é flagrado em cima de uma árvore e leva o murro de um dos seguranças) é um dos grandes trunfos do filme. Os seguranças trazem um elemento novo na comunidade, que é uma certa relação de poder proveniente de membros da classe social mais desprivilegiada, que geralmente ficam submissos aos seus papéis sociais típicos. Eles, inclusive, não chegam a fugir completamente da regra, sendo humilhados por Dinho quando fazem uma ameaça a ele. Talvez o que mais torne notável o filme seja o clima de tensão inexorável, de iminência de algum acontecimento letal, que surge inclusive no pesadelo de uma criança, com uma multidão de homens invadindo a propriedade da família. Trata-se de uma tensão que surge diferenciada para cada um dos personagens e em momentos distintos: aquela de João de ter que confrontar o primo por conta do roubo ocorrido com a namorada; a tensão da violência e do assalto eminente por uma multidão da garota já referido, dos seguranças com relação ao seu objetivo final, da dona de casa com os pequenos elementos do cotidiano, como o barulho do cachorro etc. Menos que construir personalidades bem fechadas e de perfil psicológico demasiado definido o que antes parece existir é a tensão que resulta do processo de se encontrar vivo, de ter que optar, tomar decisões ou simplesmente viver em sociedade. Se essas não se refletem muitas vezes diretamente na fala dos personagens, encontra-se estampada em seus rostos, como é o caso, sobretudo dos seguranças. A banda sonora, bastante elaborada, chega a incluir momentos de explícito desprezo pelo realismo padrão convencional, como o dos efeitos sonoros quando o casal visita as ruínas do que fora um cinema ou que duas adolescentes conversam numa festa de aniversário. E, mesmo quando se aproxima de padrões mais convencionais, como o uso de canções ou da sobreposição entre o barulho dos fogos e dos tiros ao final, tira proveito do excesso sonoro que parece se sobrepor quase por inteiro à imagem. Pode-se arriscar se dizer que na figura de João existe algo como uma espécie de alter-ego do realizador, ou ao menos alguém mais próximo de compartilhar dos valores dele, como fica patente na sua posição em relação a uma discussão de condomínio que irá decidir o futuro do porteiro. Se os diálogos nessa reunião podem ser evocativos daqueles presentes nos filmes de Sergio Bianchi, em sua contundente ironia com relação aos valores abraçados por uma classe média extremamente mesquinha e autocentrada, a estratégia de explorar de forma algo naturalista diversos núcleos de personagens que muitas vezes se cruzam apenas marginalmente ou nem mesmo isso pode ter seus paralelos com filmes como os de Altman. Destaque para o momento, mais próximo dos cacoetes de filmes de horror, no qual aparentemente uma criança cruza de forma bastante apressada o corredor de uma residência na qual o segurança levara a empregada de Francisco para um encontro casual. Assim como para a bela imagem, a partir de algo simples, quando a personagem expele maconha que é imediatamente tragada pelo aspirador de pó. CinemaScópio. 131 minutos.

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