CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Filme do Dia: Elis (2016), Hugo Prata


Elis Poster



Elis Regina (Horta), é uma jovem entusiasta pela música que chega ao Rio de Janeiro com seu velho pai Romeu (Machado), justamente quando irrompe o golpe militar. Como eles vieram com atraso, não conseguem o prometido teste de gravação e Elis, contra a vontade paterna, fica para um ensaio com Tom e Vinícius, do qual sai desgostosa. Porém, logo brilhará em um clube noturno comandado por Ronaldo Bôscoli (Machado) e Miéle (Mauro Filho), no qual a estrela do momento é Nara Leão (Wilker). Seu temperamento não se afina com o de Bôscoli, notório mulherengo, que mantém casos com várias cantoras, sendo sua presença de palco comandada pelo coreógrafo norte-americano Lennie Dale (Andrade). Logo ela se torna um fenômeno da TV ao lado de Jair Rodrigues (Silva), porém Bôscoli acredita ser seu talento desperdiçado na TV, onde é a febre do momento, substituindo o canto intimista da bossa nova, mas logo se verá ameaçada pela popularidade da Jovem Guarda. Elis se apaixona por Bôscoli e os dois casam. Um episódio que marca negativamente sua carreira é o fato de ter cantado para os militares em uma transmissão televisiva por se sentir pressionada, sendo enterrada simbolicamente por Henfil (Gomlevsky)  em uma de suas tiras. Separando-se de Bôscoli, após inúmeras traições, ela se une ao pianista e arranjador César Camargo Mariano (Ciocler), posiciona-se criticamente em relação à ditadura e a indústria fonográfica, visita Lennie Dale na prisão, mas se sente aprisionada em sua carreira, entrando em constantes atritos com Mariano que a levam a se separar. Pouco tempo depois morre deprimida em seu quarto, após ingerir whisky e anfetaminas.


Essa cinebiografia não se esquiva de seguir o mesmo receituário das muitas que surgiram, sobretudo a partir de duas décadas anteriores ao seu lançamento, em um paralelo não de todo distante com um ciclo ainda mais intenso de documentários sobre personalidades do mundo cultural, sobretudo da música brasileira. Produção bem efetivada e com o tradicional rol de personalidades com as quais o (a) biografado(a) conviveu – curiosamente Milton Nascimento se encontra ausente, talvez por imposição do próprio compositor – e o roteiro, nada digno de nota, não se escusa em apresentar através de diálogos um tanto forçosamente didáticos  sobre quem se trata. Horta encarna com mimetismo habitual os esgares e gargalhadas que são marcas registradas da cantora, fazendo sua parte a contento dentro do conjunto construído. Porém esse último é um tanto anêmico para soar motivador, flertando ocasionalmente com temas muito interessantes, como é o caso da percepção de Elis que uma nova censura, talvez ainda pior que a do regime militar, começa a se instaurar, que é a do próprio mercado, porém  não indo além da superfície desses, assim como – e aí, de forma bem mais nociva em se tratando de um filme ficcional – não conseguindo manter uma tensão dramática que o faça conseguir levantar voo para além do desgastado modelo, completamente absorvido na pretensa curiosidade mórbida alavancada por uma figura pública expressiva e morta precocemente. E aí nos encontramos em plena seara de transformar a maior parte de suas personagens em anêmicos espectros unidimensionais. Dentre os contrastes demasiado fáceis que se faz questão de ressaltar, estão a da caipira gaúcha proveniente de um ambiente estritamente familiar que se choca com a promiscuidade de Bôscoli e com a maconha fumada por Lennie Dale ao ínicio, que se arvora como piscadela ao público que já sabe – ou senão saberá através do próprio filme – da futura Elis, mulher liberada e sem pudores, adepta do palavrão assim como das drogas. Se houve toques de ousadia da cantora em relação ao momento em que viveu, ao inclusive abraçar e transformar em enorme sucesso uma música como O Bêbado e o Equilibrista e se o próprio tempo não deixou de ser cruel em termos da datação de boa parte do repertório brilhantemente interpretado por ela, incluindo a própria referida canção, o filme multiplica a enésima potência esse efeito com saídas tão canhestras como a recorrente intercalação de números musicais da cantora com momentos vivenciados por ela numa cansativa pausterização imerecida para alguém tão criativa e carismática. Longa de estréiaBravura Cinematográfica-Globo Filmes para Downtown Filmes. 110 minutos.

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