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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Filme do Dia: Häxan (1922), Benjamin Christensen


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Häxan (Dinamarca/Suécia, 1922). Direção e Rot. Original: Benjamin Christensen. Fotografia: Johan Ankerstjerne. Montagem: Edla Hansen. Dir. de arte e Cenografia: Richard Louw. Com: Maren Pedersen, Clarapontopiddan, Elith Pio, Oscar Stribolt, Tora Teje, John Andersen, Benjamin Christensen, Poul Relmert, Karen Winther, Kate Fabian

Difícil desfiar elogios suficientes para todas as qualidades dessa gema do cinema mudo. Elas o surpreendem praticamente ao longo de todo o filme. Antes de tudo, pela subordinação de todo o enredo dramático a uma asserção sobre a feitiçaria ao longo de diversos períodos da humanidade, o que lhe traz uma dimensão documental antes mesmo que o gênero houvesse sido batizado – e o realizador faz questão de não disfarçar tal pretensão, incluindo o nome de eruditos que colaboraram com a produção, gráficos e pinturas clássicas para comprovar sobre o que fala. É sobre essa dimensão documental que ocorre o prólogo do filme, dimensão essa que retornará com força em outros momentos.  Provavelmente influenciado pelo Intolerância (1916), de Griffith – tendo sido lançado nos Estados Unidos com o sugestivo subtítulo de A Feitiçaria Através dos Tempos, semelhante ao subtítulo da célebre obra do realizador norte-americano. Sem necessitar da opulência majestosa, pomposa e, em última instância estéril do filme de Griffith, Christensen realiza um filme surpreendentemente moderno tanto em forma quanto em sua ideologia. Esteticamente irreprovável, o filme constrói seu universo de demônios e seres bizarros com criatividade ímpar, superando talvez o talento da arte cenográfica da produção expressionista alemã posterior e contemporânea em associação com trucagens óticas. Seu desenho de produção, que inclui transparências com bruxas voando, efeitos de animação e maquetes, certamente influenciou um tratamento semelhante para o Fausto (1926), de Murnau. Formalmente assombrosa é a criatividade com que trafega entre explanações histórico-científicas e sua dramaturgia encenada, incorporando a ambas deliciosos comentários narrativos sobre a própria produção – como o fato de uma das atrizes acreditar efetivamente em demônios  segundo o narrador e jurar ter visto um ou outra se ter submetido a um dos aparelhos de tortura mais leves, e o realizador se negar a contar os segredos que extraíra dela. Assim como o uso da montagem, que a certo momento demonstra um eixo inexorável que questiona a própria explicação científica para o fenômeno da bruxaria medieval como sendo somente superior a explicação anterior, identificando igualmente uma linha de continuidade – representada, por exemplo, nos banhos frios para curar as histéricas tal como as torturas redimiriam as almas das bruxas. Inusitadamente ousado o é também no plano moral, com uma implícita, e por vezes não tão implícita, veia sensual que o atravessa do início ao final, apresentando cenas desde mulheres beijando o traseiro do demônio até diversas cenas de nudez feminina, muitas delas censuradas à época. Sua mescla entre documentário e ficção, seriedade e bom humor, argumentos históricos e fantasia parece antecipar em décadas experiências semelhantes de realizadores modernos tais como Dusan Makavejev e Jean-Luc Godard. Já seus rostos intensamente próximos da câmera em situações de tortura antecipam uso semelhante efetivado por seu compatriota mais célebre, Dreyer, em A Paixão de Joana D´Arc (1928), mesmo que um humor semelhante e menção a tradição escatológica cristã, sob viés bastante distinto, já houvessem aparecido na obra de Dreyer em filmes como A Quarta Aliança da Senhora Margarida (1920) e Páginas do Livro de Satã (1921). Deve-se ressaltar que no último a opção por um tom sério-dramático e sua visão moral conservadora o torna bem menos interessante ao público contemporâneo que essa obra de Christensen. O realizador aparece como ele próprio, travestido de demônio e encarnando Jesus Cristo. Alijosha/Svenskfilmindustri.105 minutos.

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