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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Filme do Dia: O Princípio do Prazer (1979), Luiz Carlos Lacerda


O Princípio do Prazer

O Princípio do Prazer (Brasil, 1979). Direção: Luiz Carlos Lacerda. Rot. Original: Luiz Carlos Lacerda, Raimundo Higino & Luiz Antônio Magalhães. Fotografia: Gilberto Otero. Música: Jaceguay Lins. Montagem: Raimundo Higino. Dir. de arte e Figurinos: Júlio Paraty. Com: Paulo Villaça, Odete Lara, Ana Maria Miranda, Luiz Antônio Magalhães, Nuno Leal Maia, Carlos Alberto Ricelli, Nildo Parente, Lígia Diniz, Maria Theresa Freire, José Kléber, Gabriel Archanjo.

Anos 30. Numa fazenda em uma ilha em que foram morar se afastando do Rio de Janeiro, encontra-se uma família em dificuldades econômicas. O dono da casa, Otávio (Villaça), Norma (Lara), Ana (Miranda) e Mário (Magalhães). Otávio contrata um novo empregado, Álvaro (Ricelli), que se torna amante de Ana, para os ciúmes de Mário, assim como igualmente é seduzido por Otávio. A família recebe a visita de uma prima, Sônia (Freire), que após ter uma noite de amor com Otávio, é violentada e morta por um empregado da fazenda, aparentemente a mando de Ana. Seu futuro marido, Renato (Parente) não possuirá fim distinto. Mas antes de morrer revela a Álvaro um segredo, que faz com esse parta da ilha e vá buscar gente na cidade para destruir a propriedade e os que nela vivem.

A década de 70 foi a década por excelência em que o cinema brasileiro se deteve em retratar, esmiuçar ou desconstruir a família tradicional brasileira. Algumas vezes de forma contundente, amarga e hilária ao mesmo tempo como em Toda Nudez Será Castigada (1972) e não poucas vezes, como aqui, em mero convite voyeurístico a observar seu decadentismo sexual de ângulos privilegiados e fazendo uso da nudez dos corpos de seu jovem elenco. A opção por um filme de época dos anos 30 não parece ter outro intuito, igualmente, que o de efetuar um choque entre a hipocrisia familiar burguesa representada pela sisudez dos personagens à mesa e a facilidade com que os atores se despem, bem mais típica do momento em que foi produzido. Tem-se uma dimensão do que se espera quando a sisudez à mesa é algo atravancada pelos ruídos de uma besta misteriosa a ruir em altissonante gozo, provocando o humor involuntário do avacalhamento não tão distante do Cinema Marginal. Curiosamente à rigidez da pretensa compostura e seriedade burguesas se misturam  tanto a uma eventual atuação empertigada e excessivamente marcada do elenco, como na cena em que Villaça visita a proprietária da fazenda em que vive, como uma descontração exagerada, igualmente mais próxima do momento que foi produzido. E haja A Cavalgada das Valquírias para ilustrar uma fantasia sexual da ninfômana Ana com Mário a cavalo (curiosamente, no mesmo ano que o tema havia sido usado como ilustração para cenas de devastação em Apocalipse Now, de Coppola). Certamente Lacerda visava efetuar algo na linha de seu modelo literário favorito, Lúcio Cardoso, de quem havia adaptado Mãos Vazias, igualmente em Paraty (cujo povo, assim como os pais do realizador, o filme é dedicado), núcleo de produção de Nélson Pereira dos Santos, que Lacerda, como no outro, compartilha de alguns atores do elenco (Kléber, Parente, Archanjo). Existe desde referências um tanto soltas a Gláuber Rocha (“Mais fortes são os poderes do povo” grita um pedinte louco em péssima dublagem) a Pasolini (se a intenção do personagem Álvaro era o de ser uma espécie de equivalente ao do protagonista  de Teorema, esse intuito nem de longe possui efeito similar, pois a família em questão aqui já é abertamente promíscua,  antes mesmo de sua chegada). Destaque para a não preocupação em disfarçar a “antiguidade” dos discos que a prima traz do Rio, embalados em invólucros que parecem ser realmente do período em que a história se passa e não as novidades mais recentes do fox-trot e do charleston. Dito isso, não se pode negar ao filme uma engenhosa revelação que demonstra uma ousada “provocação” , por mais que sua miscelânea de referências dilua um pouco tal efeito bem conseguido de roteiro, indo beber um tanto toscamente em um gótico solar ao qual não falta uma tentativa de linchamento evocativa, muito a seu modo, do Frankenstein (1931), de Whale e que, não se concretiza, com o quarteto aportando com toda sua elegância em Niterói quando sua propriedade é cercada, trazendo consigo a besta barulhenta, quase como a demarcar a impossibilidade do filme ser levado completamente a sério. Filmes de Paraty Prod. Cinematográficas. 90 minutos.


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