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terça-feira, 27 de junho de 2017

Filme do Dia: Dois Destinos (1962), Valerio Zurlini



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Dois Destinos (Cronaca Familiare, Itália/França, 1962). Direção: Valerio Zurlini. Rot. Adaptado: Vasco Pratolini, Valerio Zurlini & Mario Missiroli, baseado no romance de Vasco Pratolini. Fotografia: Guiseppe Rotunno. Música: Goffredo Petrassi. Montagem: Mario Serandrei. Dir. de arte: Flavio Mogherini. Figurinos: Gaia Romanini. Com: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Sylvie, Salvo Randone, Valeria Ciangottini, Serena Vergano, Marco Gugliemi, Franca Pasut.

Em 1945, após saber da morte do irmão Lorenzo (Perrin), Enrico (Mastroianni) recorda toda a sua complexa relação com o mesmo. Quando criança, o odiou por ter provocado a morte de sua mãe. Posteriormente, foi para a residência de um Barão que quis adota-lo, mas na resistência da avó (Sylvie) de não pactuar com o silêncio pedido pelo Barão, esse desiste da adoção. Um criado do Barão, Salocchi (Randone), afeiçoa-se a criança e a adota. Aos 18 anos procura por Enrico, por ter sido flagrado com um garota por Salocchi. Enrico vive em condições miseráveis, mas não desistiu de estudar e trabalhar. Lorenzo, pelo contrário, acomodado as benesses de sua vida fácil da infância na Villa Rosa, residência do Barão, sempre se sentirá em desconforto com a realidade econômica difícil, após a morte do Barão, quando Salocchi é dispensado dos serviços para a família. Com a avó internada em um asilo, a quem os dois visitam e sentem por não poder viver com eles, Enrico passa a criticar Lorenzo por sua vida sem objetivo. A morte da avó apenas piora a situação. Enrico passa a ascender em sua carreira de jornalista, enquanto Lorenzo, casado e vivendo de empregos temporários é acometido por uma rara doença que o levará rapidamente à morte.
Esse pungente drama deve menos a direção que ao roteiro do veterano Pratolini, roteirista de Paisà, que volta a trabalhar com os mesmos elementos que são a base do clássico Rocco e Seus Irmãos, adaptando seu próprio romance, provavelmente de cunho autobiográfico. O resultado é a mesma mescla entre senso cristão e marxismo que torna tão lancinantes seus dramas e parentes próximos dos de Pasolini do início de carreira, embora seus personagens não sejam tão pobres quanto os dos filmes do último e nem ele busque o mesmo sentido de realismo. Um dos maiores trunfos do filme é sua mescla entre melodrama pessoal e condição econômico-social. Nesse sentido, a mensagem subliminar que o filme deixa evidente, para além do drama pessoal, é que a classe proletária ou equivalente, retratada na figura de Lorenzo, não deve se deixar seduzir pelos atrativos da dependência do paternalismo dos aristocratas decadentes, pois irá sentir a longo prazo mais duramente os efeitos do que aqueles que batalham por sua própria realização através de um trabalho mais dignificante para a construção da personalidade, como no caso de Enrico. Por esse viés, explicitamente marxista, o filme nos guia através da dolorosa via crucis de Lorenzo, que se encontrando na primeira situação, jamais poderá sorver da verde árvore da vida, nem mesmo por um fugidio instante. Zurlini deixa bem evidente tal impossibilidade, realizando um filme que não abre o menor vislumbre para um aceno de esperança. E observamos, tal e qual Enrico, o crescente desespero e impotência do irmão com a marca da derrota estampada em sua face, numa comoção e amor de feições quase homoeróticas, tal como presente no próprio filme de Visconti e, posteriormente, recriado em um filme que o homenageia, Assim é Que se Ria. Pesado e sem concessões, com uma fotografia soturna e interpretações magníficas, o filme não deixa de ser insistentemente – por vezes, excessivamente – emocionalmente manipulativo ao acompanhar a trágica situação que se encerra com a narração off de Mastroianni advogando que “felizes são os pobres de espírito”. Leão de Ouro no Festival de Veneza. Metro/Titanus. 115 minutos.

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