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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Filme do Dia: Obsessão de Amar (1965), Walter Grauman



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Obsessão de Amar (A Rage to Live, EUA, 1965). Direção: Walter Grauman. Rot. Adaptado: John T. Kelley, a partir do romance de John O’Hara. Fotografia: Charles Lawton Jr. Música: Nelson Riddle. Montagem: Stuart Gilmore. Dir. de arte: James W. Sullivan. Cenografia: Raymond Boltz Jr. Figurinos: Howard Shoup. Com: Suzanne Pleshette, Bradford Dillman, Ben Gazzara, Peter Graves, Bethel Leslie, Carmen Mathews, Linden Chiles, James Gregory, Ruth White, Mark Goddard

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Grace Caldwell (Pleshette), filha de uma família bem situada, preocupa bastante sua mãe, Emily (Mathews) por seu interesse aparentemente compulsivo por sexo, principalmente após ter sido flagrada no porão da casa do rapaz de pouca reputação Charlie Jay (Goddard). A família desse entra em contato com Emily, que após escutar a defesa da filha, vítima de problemas cardíacos, passa mal. Um rapaz de outra cidade, Sidney Tate (Dillman) deseja se casar com Grace. Ele escorraça Charlie Jay quando esse tenta fazer graça de Grace em uma festa. Grace viaja com a mãe para Bahamas. Lá tem um encontro fortuito com um garçom que atende as duas no quarto e quando retorna encontra a mãe, que havia flagrado a cama desocupada no meio da noite, morta. Em choque depressivo, Grace é encorajada por Sidney. Os dois casam e tem um filho. Porém, se Grace consegue resistir ao ex-amante Jack Hollister (Graves), agora também casado, não o faz com o trabalhador braçal e descontrolado Roger Bannon (Gazzara), que morre em um acidente automobilístico após espancar uma garota e vem à tona o relacionamento vivido entre ambos, algo que nem o próprio Sidney é poupado, confrontando Grace que após negar, assume o relacionamento, mesmo afirmando que nunca deixara de estar apaixonado por ele. Porém, pouco tempo depois, quando numa ação beneficente organizada por Grace, surge uma enciumada e embriagada mulher de Hollister afirmando que ela mantinha um relacionamento com o marido dela em público, Sidney decide se afastar dela.

Grauman, como uma espécie de Larry Clarke de sua geração, não poderia deixar de capitalizar, a partir de uma perspectiva eminentemente conservadora, em uma visão bastante moralista da sexualidade feminina, encarnada na figura de uma jovem sedenta por sexo  em contraposição aos valores caducos de uma sociedade de casas de longa escadaria e repleta de bibelôs e com uma mãe ansiosa por acreditar que somente o marido morto teria como lidar com a situação. Mesmo se posicionando de forma ambiguamente oportunista em relação à sua personagem, observando-a como uma doente e nem sequer pensando em despender um segundo que seja para refletir sobre o que a teria levado a tal tipo de comportamento – ao contrário dos didáticos “melodramas psicanalíticos” de duas décadas antes – o filme não deixa de sinalizar para uma posição de condenação moral, primeiro relacionada à morte da mãe e, posteriormente, a partida do marido. Nesse sentido, menos importa a postura mais recente e equilibrada de Grace que o peso de seu passado promíscuo. Assim, o filme em nenhum momento põe em questão o amor de Grace pelo marido e filho, deixando, ainda que subliminarmente e contra os seus propósitos, a percepção interessante, inclusive, da possibilidade de coexistência de amor conjugal e procura pelo sexo sem compromisso simultaneamente. Algo que muito claramente a opção infeliz do título brasileiro passou distante. Porém, em seu afã por temáticas sensacionalistas, Grauman, que já havia observado com a mesma ambiguidade e mais intenso voyeurismo o espaço burguês invadido por marginais da sociedade em A Dama Enjaulada, não se decide exatamente entre a chave do incentivo à identificação com a personagem ou sua condenação ao longo de toda sua narrativa, podendo Grace ser interpretada tanto como uma inconsequente quanto vítima de um comportamento sobre o qual não possui controle. Se o cinema norte-americano já havia apresentado ninfômanas tais como a vivida por Dorothy Malone em Palavras ao Vento, o contemporâneo A Bela da Tarde, de Buñuel, apresentará um enfrentamento com relação ao desejo feminino sob outro flanco, mais ousado e provocador para além do potencial sensacionalismo da temática. Seu título original, não exatamente compatível com o que observamos da personagem (vivida com brilho e, evidentemente, sem culpa pela falta de orientação em sua elaboração por Plashette) é extraído de versos de Alexander Pope. Antes e depois dessa produção, Grauman se dedicará muito mais fortemente a TV que ao cinema. O’Hara conseguiu ser melhor adaptado para o cinema com o pouco conhecido A Casa das Amarguras (e numa obra sem a mesma carga misógina daqui em Disque Butterfield 8) .  The Mirisch Corp./Rage Prod. para United Artists. 101 minutos.

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