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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

The Film Handbook#116: Luchino Visconti

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Luchino Visconti
Nascimento: 02/11/1906, Milão, Itália
Morte: 17/03/1976, Roma, Itália
Carreira (como diretor): 1942-1976

Um aristocrata marxista, o Conde Don Luchino Visconti di Morone foi amplamente aclamado tanto por seu realismo quanto pelo tom vagamente político de seus primeiros filmes, e a suntuosidade operística de seus dramas históricos posteriores. Ao longo de sua carreira, no entanto, o estilo dominou o conteúdo; muito frequentemente, o resultado foi um melodrama decorativo e vulgar, disfarçado como arte solene e socialmente significativa.

Nascido de uma das famílias mais importantes da aristocracia italianas, o jovem Visconti, após o serviço militar, desenvolveu seu interesse por arte e cavalos. Tendo trabalhado no teatro como cenógrafo, ele também serviu como figurinista e assistente de direção para Renoir, antes de realizar sua estreia em 1942 com Obsessão/Ossessione>1. Baseado em The Postman Always Rings Twice, de James M.Cain, sua história sobre um romance adúltero que resulta em assassinato, transposto para o Vale do Pó, revelou uma autenticidade na sua descrição da miséria provinciana, posteriormente observada como precursora do Neorrealismo. Além do que, sua preocupação com a inveja, traição e desejo, para não mencionar a presença de um personagem provavelmente homossexual, assegurou sua proibição pelos fascistas. A Terra Treme/La Terra Trema, uma história épica das privações sofridas pelos pescadores sicilianos foi ainda mais próxima do Neorrealismo, filmada em locações, com um elenco de pessoas da própria vila ao invés de atores. Sua mensagem marxista algo simplista, que os inimigos reais dos aldeões não são a Natureza mas os empresários que os exploram foi, no entanto, menos indicativa da carreira posterior de Visconti que seus planos longos e elaborados e seu uso da desintegração familiar como espelho do clima social da Itália como um todo. De fato, após uma atípica comédia, Belíssima (com uma Anna Magnani sentimental e espalhafatosa como a mãe trabalhadora tentando transformar sua filha em estrela nos Estúdios Cinecittà de Roma, apresentados de forma satírica), Sedução da Carne/Senso>2 desenvolveu paralelamente a história de amor entre um oficial austríaco e uma condessa casada italiana com a traição da burguesia italiana de sua causa revolucionária; mais significativamente, o filme foi a primeira incursão de Visconti em um melodrama por inteiro, seu realismo restrito a reconstrução extravagantemente detalhada da época do Risorgimento, suas cores, composições, movimentos de câmera e construção de interiores todos marcados por uma extravagância barroca e ornamental.

Noites Brancas/Le Notti Biance, uma versão de um conto de Dostoievski realizada em estúdio sobre um romance entre dois amantes  aprisionados pelas fantasias privadas foi igualmente exagerado, enquanto Rocco e Seus Irmãos/Rocco i Suoi Fratelli>3 sobre a desintegração de uma família italiana, sob pressões econômicas, sociais e sexuais, forçando-a a mudar-se para Milão, foi o mais sombrio e melhor filme de Visconti; enquanto sua narrativa solidamente em espiral vai do modesto realismo ao vibrante melodrama, sua análise da brutalidade, traição e rivalidades entre os irmãos se beneficiou enormemente  de sua fotografia em estilo noir e suas locações urbanas. Porém O Leopardo/Il Gattopardo>4 observou um retorno ao drama histórico arrastado, observando a relutante mas inevitável aquiescência de uma família de aristocratas ao romance de seu filho com uma garota burguesa tendo como pano de fundo a unificação italiana por Garibaldi; não somente o diretor parece menos interessado nos elementos políticos do filme que nas qualidades estéticas de um grandioso baile, porém o que resta de sua análise sobre o conflito de classes foi obscurecida por sua própria identificação elegíaca com o gentil e indubitavelmente honrado patriarca de Burt Lancaster.

O pior, no entanto, ainda estaria por vir: Vagas Estrelas da Ursa/Vaghe Stelle d'Orsa foi um ambicioso mas profundamente fracassado drama familiar freudiano parcialmente inspirado pelo mito de Elektra; O Estrangeiro/Lo Straniero, uma rasteira, equivocada e grosseiramente redundante caricatura do romance existencialista de Camus; Os Deuses Malditos/La Caduta Degli Dei, um vulgar e ridiculamente solene melodrama dinástico ambientado em uma Alemanha nazista histericamente decadente; e Morte em Veneza>5, uma empolada, vazia e anticlimática versão do breve romance de Thomas Mann, com um envelhecido compositor sofrendo com a paixão não correspondida por um adolescente inalcançável e efeminado em trajes de marinheiro; somente o uso da música de Mahler minorou o efeito de tédio completo. Por essa época, o gosto de Visconti por lentos planos-sequencia, cenários elegantes e interpretações grandemente empostadas encontraram o auge da falta de gosto pretensiosa; e Ludwig: A Paixão de um Rei/Ludwig, um retrato barroco e apolítico do louco e recluso rei da Bavária foi pouco mais que uma análise romantizada sobre a homossexualidade neurótica.

Violência e Paixão/Gruppo di Famiglia in un Interno (Conversation Piece)>6 sobre um velho e solitário professor revoltado e rejuvenescido com a chegada no apartamento acima dele de um incestuoso grupo de vulgares novos-ricos, foi algo como um retorno à forma: melancólico, imponente, relativamente subestimado e (com a exceção de Helmut Berger como um anjo da morte) com interpretações sutis. O Inocente/L'Innocent, no entanto, um filme de época óbvio e altamente enfático sobre a dupla moral que opera nas relações de infidelidade entre um homem e uma mulher, foi meramente inócuo. Tipicamente extravagante, seria o último filme que Visconti realizaria antes de sua morte

Também um aclamado diretor de teatro e ópera, Visconti aderiu fundamentalmente a um tipo de cinema estático e de direção de arte: opulentamente visualizado, com grande atenção prestada aos valores superficiais mais que ao ritmo narrativo, profundidade psicológica, complexidade temática ou reflexões morais. Dessa forma, seus indigestos filmes da fase final podem ser vistos como exercícios redundantes de esteticismo, e servem para pôr em questão seu compromisso anterior com as premissas do Neorrealismo.

Cronologia
Claramente influenciado por suas experiências com Renoir, Visconti, como De Sica, Antonioni e Fellini abandonou o neorrealismo para forjar um estilo mais pessoal. Sua grandiloquente sensibilidade decorativa, frequentemente aplicada ao drama histórico e temas literários, pode ser comparada com ou ter influenciado Lean, Ivory, Coppola e Cimino.

Leituras Futuras
Visconti (Londres, 1973), de Geoffrey Nowell-Smith, A Screen of Time: A Study of Luchino Visconti (Nova York, 1979), de Monica Stirling e Luchino Visconti (Nova York, 1983), de Claretta Tonetti

Destaques
1. Obsessão, Itália, 1942 c/Massimo Girotti, Clara Calamai, Juan de Landa

2. Sedução da Carne, Itália, 1954 c/Alida Valli, Farley Granger, Massimo Girotti

3. Rocco e Seus Irmãos, Itália, 1960 c/Alain Delon, Renato Salvattori, Annie Girardot

4. O Leopardo, Itália, 1963, c/Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale

5. Morte em Veneza, Itállia, 1971 c/Dirk Bogarde, Silvana Mangano, Bjorn Andressen

6. Violência e Paixão, Itália, 1974 c/Burt Lancaster, Silvana Mangano, Helmut Berger

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 296-8.

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