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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Filme do Dia: Os Passageiros (1999), Jean-Claude Guiguet


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Os Passageiros (Les Passagers, França, 1999). Direção: Jean-Claude Guiguet. Rot. Original: Jean-Claude Guiget & Haydée Caillot. Fotografia: Philippe Bottiglione. Montagem: Khadicha Bariha &  Marie Tisserand. Cenografia: Laurent Gantés. Figurinos: Monic Parelle. Com: Fabianne Babe, Philippe Garziano, Bruno Putzulu, Stéphane Rideau, Gwenaëlle Simon, Véronique Silver, Jean-Christophe Bouvet, Marie Rousseau.
Uma mulher comenta sobre os passageiros desconhecidos que observa no bonde que efetua o trajeto para o hospital onde trabalha.

Seu tom de fantasia é talvez apenas um ou dois acordes além do realismo convencional, partindo de pequenas situações do cotidiano e parece movido por um humanismo sentimental em tudo menos presente no cinema francês de sua época, evocando talvez mais algo próximo de alguns realizadores da Nouvelle Vague como Truffaut ou ainda Jacques Demy. Ou mesmo talvez da pós-Nouvelle Vague. Com as situações apresentadas por uma espécie de “mestre-de-cerimônias” outonal e carismática, vivida por Véronique Silver que, como nos filmes de Fellini,  media, antecipa e/ou induz o que vemos ou iremos ver, dirigindo-se diretamente à câmera, o filme também demonstra seu viço com seu belo prólogo sobre os trilhos,  extraindo do movimento e de pequenos e encantadores achados visuais – como o do fundo negro para os créditos buscado na escuridão de um túnel - sua beleza. Cômico, mas ainda mais espirituoso,  modesto e irregular, são essas mesmas características que fazem seu charme. Tudo isso temperado com pitadas de erotismo que exemplificam os três tipos de sexualidade explanadas monologicamente por um homem a seu ouvinte no bonde: homossexualidade, heterossexualidade, onanismo, sem se apegar as minúcias das variações possíveis elencadas pelo mesmo. Não se pense, no entanto, que tudo são flores e magia. Mesmo nos produtos mais aparentemente róseos de realizadores franceses existem vestígios ou mesmo a forte presença do seu oposto, como é o caso de Demy e tantos outros. Aqui não é exceção e ocorre praticamente um paralelismo entre o vigor e exuberância que marcam seu início, apresentando meio que obliquamente as atividades iniciais de um dia de trabalho com a soturna melancolia de seu final, repleto de locais abandonados, semi-destruídos, vazios da presença humana e o cemitério à margem da linha do bonde, tal como numa suma da própria vida. Talvez funcione mais enquanto observado como um todo, que em suas partes, com muitas das histórias narradas soando um tanto pouco efetivas, em termos dramáticos, como a do rapaz que se encontra em estado terminal e recebe a visita de seu companheiro. Ou o reencontro de um colega de classe por duas amigas. São situações que não apresentam maior conectividade com o filme como um todo e nem tampouco com as micro-narrativas por ele desenvolvidas. Da mesma forma, a herança do intimismo afetivo das gerações acima citadas ressoa aqui certamente positivamente e também com suas limitações. Alguns planos surgem em seu mesmo ângulo rigoroso (ou seriam repetição dos mesmos anteriormente observados, em sua função de pontuação), evocativo juntamente com seu corte seco, de Antonioni (O Eclipse). Referências cinematográficas pipocam aqui e acolá. Seja quando escutamos a voz da narradora, deslocando-se do habitual espaço de observação no próprio bonde, a ressaltar o mesmo cenário de L’Atalante de Vigo, após um passeio de bicicletas entre amigos, no qual um deles havia acabado de se referir, aparentemente sem citar diretamente, a absurda irresponsabilidade da visão de mundo de Noites Felinas (1992), de Cyril Collard, em que o protagonista, vivido pelo próprio Collard, faz sexo desprotegido sendo vítima do HIV em contraposição a A Mãe e a Puta (1972), de Jean Eustache. A estranheza do comentário incorpóreo da narradora, que também comenta sobre algo que se estende para além do universo ficcional em questão, assemelha-se quase a daqueles sobrepostos em DVDs comentados. Little Bear/Lancelot Films para Les Films du Losange. 93 minutos.

2 comentários:

  1. Somente agora vim a "conhecer" este filme. Mais uma para a lista de intermináveis pendências.

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  2. eu diria que vale a pena, até por sua estraheza...

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