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domingo, 10 de julho de 2016

Filme do Dia: O Longo Caminho para Casa (1997), Mark Jonathan Harris


O Longo Caminho Para Casa Poster


O Longo Caminho para Casa (The Long Way Home, EUA, 1997). Direção e Rot. Original: Mark Jonathan Harris. Fotografia: Don Lenzer. Música: Lee Holdridge. Montagem: Kate Amend.
Uma exaustiva compilação de imagens que cobre o período que vai do final da Segunda Guerra Mundial até o reconhecimento do estado de Israel em 1948 pela ONU. Talvez a  sua maior virtude seja se deter sobre aspectos históricos hoje pouco lembrados como o do empecilho que o governo britânico criou para a emigração dos refugiados políticos judeus para a Palestina e, ainda mais, a existência dos campos do exército americano na Alemanha, que com suas políticas de militarização, eram uma continuidade atenuada do atentado contra os direitos humanos que representaram os campos nazistas. Contendo depoimentos de ex-prisioneiros judeus o filme, com seu olhar retrospectivo, constrói com a paradoxal solidez das grandes narrativas, a própria trajetória que justifica a nação israelense hoje. Logicamente fica de fora quase tudo que não se enquadre ao mito nacional israelense, com  uma exceção - a da colaboração de muitos judeus com os nazistas – que apenas confirma a regra. A utopia da criação de uma nação com pessoas provenientes de mais de cinqüenta nacionalidades, por exemplo, é encarada sem maiores percalços, em mais de um momento, com cenas que apresentam a convivência idílica entre gente de costumes e histórias de vida tão diversas, dançando alegremente. Da mesma forma os judeus quase sempre surgem como vítimas do terrorismo árabe, embora nada obviamente seja dito sobre a longa tradição de afinidade eletiva da cultura árabe para com a mesma região. Na  única vez que surgem como provocadores do terrorismo – a explosão de um hotel em que se alojavam sobretudo membros do exército britânico – a coisa toda ganha outra dimensão, já que para atenuar a imagem dos feridos sendo retirados dos escombros existe simultaneamente o narrador (Morgan Freeman) a nos fazer cientes de que tal ato foi que provocou um reviravolta na política britânica com relação a questão judaica. Curiosamente os depoimentos de ex-prisioneiros, dos quais muitos hoje são líderes de organizações sionistas da sociedade civil, parecem ser menos apaixonadamente ideológicos que o corpo narrativo maior do documentário, apoiado por comentário e trilha sonora extremamentes manipulativas à nível emocional. Como Hitler já se encontrava morto no período que começa a ser objeto de discussão, os vilões passam a ser, entre outros, o general Patton  e o primeiro-ministro britânico Attlee, com suas políticas de não incentivo a abertura de Israel para os refugiados políticos. O herói, obviamente, é David Ben Gurion, o pai da nação judaica, que aparece emocionado incensando um grupo de refugiados políticos a terem paciência até o dia em que conseguiriam permissão para partirem rumo à Israel. À parte as farpas dirigidas contra a política inicial americana, contrária aos interesses sionistas de liberdade para os refugiados políticos, provavelmente para não ferir sua aliança com a Inglaterra, logo se acentua a importância inquestionável que representou os EUA para a aceitação do novo Estado pela comunidade internacional. Entre os bons momentos se encontra o que aborda a pouca sensibilidade ou o aberto antagonismo com que os judeus são recebidos nos EUA e na Europa Oriental. Ou ainda os casamentos apressados entre ex-prisioneiros sem mais nenhum membro da família vivo. Um dos maiores incômodos que proporciona o filme é justamente o de acompanhar a criação de um tipo ideal tão interpridamente emancipador na figura do povo judeu, como Marx fizera com sua idealização do proletariado. Aliás, cumpre lembrar uma cena em que os judeus ameaçados no navio que se dirige para Israel aparecem tão altivos quanto os marinheiros do Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein. Da mesma forma soa muitas vezes como irritante um certo tom de vitimização que parece dividir o espectro político dos envolvidos entre os agentes da boa e da má consciência, havendo um verdadeiro gozo em se denunciar os últimos na figura da Igreja Católica, que influiu para que a política latino-americana se proclamasse contrária a legalização do estado judeu ou do já citado Patton. Resta aplicar, de forma igualmente convincente,  a mesma lógica para a própria política interna israelense. Moriah Films/The Simon Wiesenthal Center. 120 minutos.


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