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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Filme do Dia: O Maior Amor do Mundo (2006), Cacá Diegues


O Maior Amor do Mundo Poster


O Maior Amor do Mundo (Brasil, 2006). Direção e Rot. Original: Cacá Diegues. Fotografia: Lauro Escorel. Música: Chico Buarque. Montagem: Quito Ribeiro. Com: José Wilker, Léa Garcia, Marco Ricca, Sérgio Britto, Taís Araújo, Ana Sophia Folch, Sérgio Malheiros, Hugo Carvana, Stepan Nercessian, Érika Mader, Clara Carvalho, Max Fercondini, Sílvio Guindane.
Astrofísico de renome mundial, Antônio (Wilker) vem ao Brasil para receber a mais importante comenda por parte do presidente da república. Portador de um tumor cerebral e com expectativa de vida que não vai além de uma semana, ele procura buscar seu próprio passado, reencontrando seu mal-humorado pai (Britto), hoje vivendo em um asilo e indo até a favela onde morou sua mãe, Flora, chegando a informações dela através de uma vidente (Garcia) que foi muito próximo dela. Nos poucos dias que vivencia junto a comunidade, Antônio fica próximo do garoto Mosca (Malheiros), que é assassinado e se sente atraído pela jovem Luciana (Araújo), reencontrando a imagem de sua mãe (Folch), personificada em uma jovem catadora de lixo da beira do rio.
Diegues procura ser fiel a sua trajetória marcada pela reflexão sobre o Brasil, porém ultimamente fazendo uso de recursos narrativos e estilísticos cada vez mais convencionais. O protagonista, nesse sentido, seria o próprio compêndio materializado da dupla faceta de um país (Bélgica + Índia), que só vem a tomar conhecimento dessa outra metade, sua origem pobre, quando se vê diante da morte. Essa tomada de consciência é um recurso dramatúrgico que pode evocar os filmes de Capra, notadamente Do Mundo Nada se Leva (1938). Só que aqui, trata-se sobretudo de um avarento em sentimentos que somente redescobrirá os mesmos após uma passagem pelo universo dos despossuídos, mas ainda assim cheios de uma alegria de viver. Às facetas melodramáticas o filme procura somar certa nostalgia de passado “principesco” de viés viscontiano, como nos flashbacks dos saraus e apresentações do pai maestro. Algo que, evidentemente, ressurge de modo trágico nos momentos finais do herói, evocativos de Morte em Veneza. E que se encontra igualmente presente no forte caráter edipiano do herói, acentuado pelo fato pouco percebido de que a atriz que vive sua secretária no presente é a mesma que encarnara sua mãe no passado, assim como no fato de morrer nos braços de sua mãe e não nos de sua amante, na tentativa de expiar a sua própria culpa por ter provocado sua morte ao nascer. A tragédia do Maracanã na Copa de 1950, revista em belas imagens da época se confunde a da mãe que morre, ainda que a última seja completamente despida de força dramática, em grande parte devido a inexpressividade de Folch. Seguindo essa lógica metafórica, o dia da perda da Copa selaria também o fim da possibilidade utópica de união entre pobres e ricos, representada pela ligação amorosa entre patrão e empregada? E os últimos dias de Antônio  seriam uma tentativa de voltar a se pensar nesse elo perdido? Porém até que ponto se pode falar em elo e não apenas em má consciência quando se percebe que “o grande amor do mundo” do pai foi tão intenso que deixou Flora morrer à míngua? O que, aliás, poderia ser aplicado perfeitamente ao protagonista, que como o pai volta a fazer um filho em uma mulher pobre, só que agora com a possibilidade de deixar sua herança para a mesma. Somente se foge por completo de uma visão ao estilo de Casa Grande & Senzala nessas relações amorosas por que se instila afetividade no que seria uma relação puramente carnal e por conta de Flora ser branca. Por outro lado, a intensa desarmonia e violência que reina na favela, evidenciada em cenas como a do assassinato por traição ou do massacre coletivo que leva ao que seria uma atualização do que teria sido o próprio protagonista, Mosca, a ser morto não se estende para um aberto conflito entre classes, já que Wilker é tratado sempre de modo reverencioso e até mesmo servil pelos membros da comunidade. Aos próprios membros dessa, tanto no passado como no presente, existe muita pouca opção para ter uma vida mais digna que não seja o de aceitar a própria miséria ou esperar por algum milagre que venha de fora, como foi o que ocorreu tanto pelas mãos do pai do protagonista como por ele próprio. Como em outras inúmeras produções recentes que fazem menção ao período áureo da ditadura militar, não deixam de se encontrar presentes os clichês que contrapõem de modo radical e absoluto os progressistas dos conservadores na política. Globo Filmes/Lereby Productions/Natasha Filmes para Columbia Pictures do Brasil. 106 minutos.


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