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domingo, 24 de julho de 2016

Filme do Dia: O Homem com a Câmera (1929), Dziga Vertov


Um Homem com uma Câmera Poster


O Homem com a Câmera (Cjelovek s Kino-Apparatom, URSS, 1929). Direção e Rot. Original: Dziga Vertov. Fotografia: Mikahil Kaufman. Montagem: Yelizaveta Svilova.
Esse tocante tributo ao cinema e ao seu poder de captar imagens diversas do mundo, considerado um dos maiores documentários de todos os tempos, inicia com uma advertência sobre a necessidade de um cinema-cinema, que se afaste dos meios literários e teatrais para efetivamente se concretizar. Vertov demonstra isso na prática, através do uso de um arsenal diverso de trucagens ópticas e – principalmente – pela junção delas todas através da montagem. O filme transpira a euforia de uma União Soviética ainda embevecida com sua jovem revolução. Se o painel diverso do cotidiano urbano que apresenta boa parte do filme, principalmente em sua primeira parte, pode sugerir uma aproximação com as sinfonias metropolitanas, das quais a mais famosa é também a pioneira, Berlim, Sinfonia de uma Metrópole (1927), Vertov vai muito além. Sua construção formal faz questão de incluir – por vezes didaticamente – o próprio cinema e seu complexo e diversificado aparato – projeção, exibição, recepção, montagem e filmagem. O resultado final, é permeado por bom humor e por uma enciclopédica atração pela sociedade que devassa em seus mais diversos aspectos, do vagabundo que é flagrado dormindo às madames no salão de beleza, da multidão anônima das ruas ao sorriso de uma criança. Por vezes, ocupando-se de blocos quase “temáticos”, como o que apresenta uma série de atividades esportivas (sua utilização de efeitos diversos nessa seqüência como a câmera lenta e o congelamento antecipam utilização semelhante por Vigo em seu Taris, de dois anos depois) e por outros realizando associações de imagens. No caso das últimas, destaque para o momento que efetiva uma feliz associação que desvenda a própria origem do termo montagem, incluindo-a entre outras linhas de produção. Ou a ainda mais belo momento em que o filme congela pela primeira vez a imagem e se passa a uma explicitação do próprio processo de composição da montagem. E ainda para as contraposições entre motivos como casamento/divórcio, nascimento/morte. Ainda que tampouco livre de um forte caráter propagandístico, como no momento em que se equipara a uma colagem-mural que compõe um jornal operário, o filme continua bem mais atraente que outros filmes ideologicamente exaltadores da Revolução de 1917 tais como Outubro (1928), de Eisenstein. Possui diversas versões, sendo essa infelizmente longe de se encontrar completa, com final truncado – a versão mais completa conta 80 minutos – e com trilha musical de elementos eletrônicos e jazzísticos, sido realizada em 2003. O filme antecipa em muitas décadas muitos dos efeitos visuais de Koyaanisqatsi (1983), como as nuvens em movimento acelerado no céu, cenas de multidões em câmera acelerada e associações entre mecanismos   semelhantes, assim como deve ter sido de fundamental influência para um realizador mais inspirado que Reggio, Pelechian. VUFKU. 66 minutos.


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