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sexta-feira, 24 de junho de 2016

The Film Handbook#81: Lindsay Anderson

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Lindsay Anderson
Nascimento: 17/04/1923, Bangalore, Índia
Morte: 30/08/1994, Angoulême, Charente, França
Carreira (como diretor): 1948-1993

Um progressivo enfraquecimento, tanto em termos de qualidade quanto de quantidade, na obra de Lindsay Gordon Anderson, desmente o fato de que de todos os realizadores associados com o  movimento do Free Cinema britânico no final dos anos 50 ele tenha sido o mais habilidoso. Desde então, o compromisso parece ter se petrificado numa postura hipócrita, a paixão em bile.

Como montador do cinejornal Sequence, Anderson vociferou uma crítica polêmica da indústria de cinema britânica (por sua confiança em temas burgueses e sóbrios). Ele endossou essa visão realizando curtas documentais sobre temas tão variados quanto operários fabris, uma escola para surdos e o mercado de Covent Garden. Em 1963 dirigiria seu primeiro longa, O Pranto de um Ídolo/This Sporting Life>1 baseado em um romance de David Storey sobre o condenado amor de um jogador de rugby por sua senhoria viúva. Marcado por interpretações fortes, difere-se de outros filmes superficialmente semelhantes britânicos da época por introduzir uma boa dose de poesia em sua, doutro modo, ortodoxa visão realista do norte industrial. Os jogos de rugby são filmados em épica câmera lenta, vinculando a brutalidade física do ator Richard Harris a uma visão quase primitiva da humanidade, enquanto a aranha que esmaga contra a parede branca do hospital como uma mancha preta com filetes de sangue do corpo de sua amada é um potente símbolo da própria morte, assim como da equivalente inabilidade do personagem em se comunicar.

Do início dos anos 60, Anderson passou a dispender grande parte de seu tempo trabalhando no teatro, e seis anos se passaram até sua próxima realização, Se.../If...>2. Embora menos coerente e compassivo que O Pranto de um Ídolo, Se...foi de longe mais ambicioso. A erupção violenta de emoções veio novamente à tela com estudantes de escola pública - liderados pelo Mick Travis de Malcolm McDowell - rebelando-se contra as restrições de uma vida regimentar. Abertamente inspirado pot Zero em Conduta de Vigo,  combina uma acurada descrição realista dos rituais arcaicos da escola com uma evocação surreal e engenhosa da libertação espiritual e selvageria: o capelão da escola, fuzilado até a morte pelos rapazes é mantido em um armário do aposento do diretor aguardando um pedido de desculpas e, em um ambíguo e explosivo fantástico final, os rebeldes voltam suas metralhadoras contra os professores, administradores e pais.

Esses inebriantes sentimentos anti-autoritários foram revividos em uma frouxa sequencia, Um Homem de Sorte/O Lucky Man! O Travis de McDowell reaparece, em nome senão do personagem, mas como uma figura no estilo de Cândido, cujo progresso picaresco em direção a conquistar uma participação na atuação do filme o leva a uma versão estranha e sinistra da moderna Inglaterra. Um punhado de imagens são impressionantes - notavelmente uma cabeça humana transplantada para o corpo de um porco - mas a sátira é demasiado ampla para ser incisiva. Dez anos depois, Hospital dos Malucos/Britannia Hospital, outra colérica alegoria sobre o estado das coisas na nação mirou em alvos ainda mais fáceis, focando em um micro-cosmo de um hospital em condições precárias assolado por uma greve durante uma visita da realeza. Grandemente desconsiderado pelos críticos e pelo público, seu fracasso promoveu uma mudança de humor e estilo em Baleias de Agosto/Whales of August, adaptação insossa e teatral de uma peça sentimental sobre o envelhecimento. A despeito das calibradas interpretações dos veteranos Lilian Gish, Bette Davis, Vincent Price e Ann Sothern, sua falta de originalidade torna-a irreconhecível enquanto obra de Anderson.

De fato, seu futuro como realizador aparenta ser incerto, tão em desacordo se encontra tanto com o establishment quanto com os talentos jovens.

Cronologia
Mesmo que as experiências de Anderson como documentarista do movimento Free Cinema  (o qual os cineastas suíços Alain Tanner e Claude Goretta foram brevemente conectados) lhe inculcaram um sentimento pelo realismo, outras paixões - Ford, Vigo, Humphrey Jennings - impeliram-no rumo a uma fantasia mais poética. Nos anos 60 ele voltou sua atenção para o Leste Europeu, e Milos Forman tem comentado sobre o apoio de Anderson.

Destaques
1. O Pranto de um Ídolo, Reino Unido, 1963 c/Richard Harris, Rachel Roberts,Alan Badel

2. Se..., Reino Unido, 1969 c/Malcolm McDowell, Peter Jeffrey, Arthur Lowe

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 13-14.

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