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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Filme do Dia: Flechas de Fogo (1950), Delmer Daves


Flechas de Fogo Poster


Flechas de Fogo (Broken Arrow, EUA, 1950). Direção: Delmer Daves. Rot. Adaptado: Albert Maltz & Michael Blankfort, a partir do romance Blood Brother, de Eliott Arnold. Fotografia: Ernest Palmer. Música: Hugo Friedhofer. Montagem: J. Watson Webb Jr. Dir. de arte: Albert Hogsett & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Thomas Little & Fred J. Rode. Figurinos: René Hubert. Com: James Stewart, Jeff Chandler, Debra Paget, Basil Ruysdael, Will Geer, Joyce Mackenzie, Arthur Hunnicutt, Chris Willow Bird, Jay Silverheels.
Tom Jeffords (Stewart) desde um encontro com um jovem índio ferido, de quem cuidou e recebeu uma oferenda, torna-se cada vez mais próximo dos índios apaches, incluindo seu líder, Conchise (Chandler) e apaixonando-se pela bela Sonseeahray (Paget).  Com muita dificuldade, e desconfiança de ambos os lados, Conchise, Jeffords e o General Oliver Howard (Ruysdael) firmam um acordo de paz, ainda que os índios “renegados” por Conchise, e cuja liderança passa a ser Geronimo (Silverheels), ataquem ocasionalmente uma diligência ou que homens brancos mal intencionados promovam uma emboscada em que  Sonseeahray seja morta.
Esse western se torna um curioso antecessor dos filmes que começavam a contestar a habitual visão dos índios – algo que já havia sido trabalhado em alguns filmes dos idos do cinema narrativo, inclusive excluindo os brancos do universo dramático (como em Os Irmãos Indígenas ou The Mended Lute ou mesmo abertamente pró-índios como é o caso de The Red Man’s View, de sintomaticamente explícito título – tais como Rastros de Ódio (1956), de John Ford ou o posterior O Pequeno Grande Homem (1970), de Penn. E, curiosamente, inicia fazendo menção ao habitual mote de que tudo de fato aconteceu como narrado, excluindo o fato dos índios falarem em inglês, quase como num pedido de desculpas, por conta de na época ainda não ser possível esse acréscimo de realismo; algo que, aliás, deveria ser estendido à própria conformação do elenco que, tal como nos tempos de Griffith, trará brancos e atores de algum renome, como é o caso de Paget e Chandler, no papel de índios. Descontados anacronismos menores, associados ao modo de representação e caracterização dos índios, o filme consegue construir um drama em que a alteridade é elaborada com rara maturidade em termos da visão cinematográfica contemporânea. Existe falhas, desconfianças, ressentimentos e ódios tanto no universo dos brancos quanto dos índios e ainda que James Stewart de certa forma seja observado como principal responsável pelos primeiros contatos que resultarão em uma situação de paz oficial entre índios e brancos, encontra-se longe de ganhar uma dimensão grandiloquente ou mitológica como habitual. Quando da morte de sua amada, é Conchise quem toma a frente e observa que falhas ocasionais resultantes de índios ou brancos isolados não pode por a risco o que havia sido o trato entre o exército americano e as lideranças indígenas, coibindo Jeffords de qualquer retaliação. E, quando se trata de quebrar o pacto de paz, os brancos são observados de forma ainda mais ardilosa que os índios renegados, pois sua emboscada conta com a boa fé dos índios e de Jeffords. Resta ao último se consolar que a morte de Sonseeahray sela a paz entre os grupos e resta a ele submeter sua infelicidade pessoal à felicidade coletiva, vagando errante pela gigantesca pradaria, com o espírito dela consigo. Maltz, na época, fazia parte da lista negra dos roteiristas do Macarthismo. Ironicamente, a flecha partida em sinal de trégua e paz entre brancos e índios que faz menção o título original e que é literalmente rompida por Conchise se transforma, por motivos de retórica ou mais provavelmente mercadológicos, em “de fogo” na versão brasileira. 20th Century Fox Film Corp. 93 minutos.

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