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sábado, 25 de junho de 2016

Filme do Dia: Moloch (1999), Aleksandr Sokurov


Molokh Poster


Moloch (Molokh, Alemanha/Rússia/Japão/Itália/França, 1999). Direção: Aleksandr Sokurov. Rot. Original: Yuri Arabov & Marina Koreneva. Fotografia: Aleksei Fyodorov & Anatoli Rodionov. Montagem: Leda Semyonova. Dir. de arte: Serguei Kokovkin. Figurinos: Lidiya Kryukova. Com: Yelena Rufanova, Leonid Mozgovoy, Leonid Sokol, Yelena Spiridonova, Vladimir Bogdanov, Anatoli Shvedersky.
          Em 1942, no auge da Segunda Guerra, Hitler (Mozgovoy), seus homens de segurança e respectivas esposas se reúnem em um casarão na montanha e a palavra proibida para o fuhrer é justamente guerra. Sua companheira, Eva Braun (Rufanova), no convívio íntimo, é a única que tem coragem de enfrenta-lo e até mesmo intimida-lo. Enquanto Goebbels (Sokol) e Bormann (Bogdanov) se digladiam para ganhar as graças do líder, à refeição, Hitler dá voz a seus pensamentos sobre o clima  como fundamentais para a idiotia do povo finlandês e dos nórdicos em geral ou a torpeza moral dos tchecos e seus bigodes decaídos. Porém, em certos momentos de inusitada simpatia, convida as empregadas para sentarem a mesa com os ilustres convivas e numa reunião no campo dança desajeitadamente com Braun e defeca em meio às pedras, para a diversão de um soldado, que o observa através de sua mira telescópica. Braun, mesmo praticando atos libidinosos com Bormann em plena refeição, a certo momento declara seu amor incondicional por Hitler, mesmo se for verdadeiro e mais ainda se for verdadeiro o prognóstico do pai dela sobre a mediocridade dele. Porém, ao mesmo tempo, vinga-se de sua afetação e grandiloquência, assim como de seu discurso que inferioriza as mulheres em geral, chutando-o no traseiro, quando se encontram a sós. Porém, os dias de aparente calmaria logo tomam a forma do abandono da casa por todo o staff do líder nazista que acredita que conseguirá vencer a própria morte e é advertido por Braun que se encontra profundamente enganado quanto a isso.
       Ao optar pela inversão da imagem que o líder nazista é comumente representada pelas artes (e o cinema não é uma exceção, antes o contrário), com uma grandiloquência e distanciamento que apenas reforçam estereótipos míticos, Sokurov acerta ao apresentar um retrato ineditamente coloquial e medíocre de Hitler, com um nível de intimidade microscópica que dá peias para que se use da imaginação. Intimidade essa ausente tanto das caricaturas escrachadas em diversas comédias desde O Grande Ditador, como dos dramas de guerra. Braun, na seqüência inicial, procurando dar vazão a sua libido e anseios infantis, dança nua pela casamata ou ao redor da mesa de jantar. Aliás, o ritual da alimentação é o mais enfatizado e igualmente o é todos os subordinados que espreitam qualquer coisa que o ditador fale ou aja, assim como seus auxiliares mais próximos, procurando captar o que escapa do notário oficial do regime, que toma notas em seu bloco sobre a imensa quantidade de asneiras disparadas por Hitler. Assim, soldados perscrutam a conversa de Hitler com um padre que pede perdão a um soldado ou até mesmo Braun dançando nua e Hitler fazendo suas necessidades na montanha. A estupenda e vaporosa fotografia e o magnífico trabalho de direção de arte, assim como a brilhante interpretação de Mozgovoy são igualmente dignas de destaque. Mais uma vez, e com muita originalidade (a certo momento Hitler afirma que enfrentará a URSS apenas porque Stálin não lhe obedeceu construindo um palácio de inverno para competir com o de Berlim), Sokurov se utiliza da história como ponte para sua criação tanto visual quanto narrativa, característica que acompanha igualmente seu posterior Arca Russa. Fabrica/Fusion Product/Goskino/Lenfilm Studio/WDR/Zero Film GMBH/arte. 108 minutos.

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