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sábado, 18 de junho de 2016

Filme do Dia: No Quarto da Vanda (2000), Pedro Costa


No Quarto da Vanda Poster


No Quarto da Vanda (Portugal/Alemanha/Suíça/Itália, 2000). Direção e Fotografia: Pedro Costa. Montagem: Dominique Auvray & Patricia Saramago. Com: Lena Duarte, Vanda Duarte, Zita Duarte, Pedro Lanban, António Moreno, Paulo Nunes, Fernando Paixão.

Experiência particularmente interessante de Costa, filmada nos subúrbios miseráveis de Lisboa, acompanha dois grupos de jovens viciados que procuram encontrar algum sentido em suas vidas. É quase inédito em sua peculiaridade, o modo intensamente ficcional que Costa se “apropria” de pessoas, situações e ambientes reais, através do ritmo cíclico em que as ações voltam a acontecer. Muito além de um caráter de pretensa denúncia social, apresentando um Portugal miserável que chega a ser achincalhado pela protagonista, o que é mais interessante no filme, e parece ser o interesse maior do realizador, é justamente essa intensidade ficcional que empresta às suas cenas pseudo-documentais. Nesse sentido, ainda que pudesse ser evocado o cinema-direto pelo fato de se tratar de pessoas e situações reais, e seus “personagens” em nenhum momento “perceberem” a câmera, assim como a completa ausência um julgamento moral, seja em termos de crítica ou heroicização sobre os mesmos,  nada mais distinto. Há uma carga de subjetividade e mesmo poesia que é completamente estranha ao cinema-direto. Assim como a elaboração dos enquadramentos e a acuidade com os ruídos. Tampouco caberia aqui a etno-ficção de Rouch ou experiências como Iracema - Uma Transa Amazônica (1976), de Bodanzky, onde parece ser trilhado o caminho inverso: uma tentativa de agregar um forte teor documental à suas elaborações ficcionais básicas. Muitos planos, tais como o cinema moderno dos anos 60 (no Brasil, os filmes do cinema marginal, por exemplo, como Matou a Família e Foi ao Cinema) fazem uso de câmera fixa, enquanto personagens saem e retornam ao quadro. A intensidade das cores diurnas, repletas de  luz  mais para doce e triste que agressiva contrasta com o mais presente escuro, abafado, dos ambientes internos. Muitas vezes se enquadra tanto a moldura da TV quanto a de uma porta. Para além da beleza, tais composições parecem ressaltar o enorme abismo entre as imagens fabricadas para a TV e a vida real. Destaque para a importante presença dos ruídos, e a elaboração que eles tiveram, demonstrando não apenas a forte, por vezes, opressiva presença do social sobre os indivíduos e a riqueza de sons do local quanto a própria destruição iminente das construções do bairro. Costa parece ressaltar ainda mais tal efeito, ao utilizar planos em que a retroescavadeira destrói cenários anteriormente vislumbrados por sua câmera. Talvez o que torne o filme mais interessante, em comparação com o bastante distinto O Sangue, é que aqui o realizador parece menos interessado em dialogar, ainda que criativamente, com a história do cinema, que com próprios aspectos da vida. Contracosta Produções/IPACA/Pandora Filmproduktion/TSI/Ventura Film/ZDF. 170 minutos.

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