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domingo, 12 de junho de 2016

Filme do Dia: Como Era Gostoso o Meu Francês (1971), Nélson Pereira dos Santos


Como Era Gostoso o Meu Francês Poster

Como Era Gostoso o Meu Francês (Brasil, 1971). Direção e Rot. Original: Nélson Pereira dos Santos. Fotografia: Dib Lutfi. Música: Guilherme Magalhães Vaz & José Rodrix. Montagem: Carlos Alberto Camuyrano. Cenografia: Régis Monteiro. Figurinos: Mara e Maria Chaves. Com: Arduíno Colassanti, Ana Maria Magalhães, Manfredo Colassanti, Eduardo Imbassahy Filho, Gabriel Archanjo, José Kleber, Ana Maria Miranda, Luiz Carlos Lacerda.
No Brasil em 1598, francês (Arduíno Colassanti) se torna prisioneiro dos Tamoios. Tenta se passar por português, mas acaba definitivamente sendo considerado como francês quando um outra francês, mercador (Manfredo Colassanti), assim o reconhece. Uma das índias, Seboipepe (Magalhães) se interessa por ele e passa a ser sua amante. Quando é ameaçado de morte pelo chefe Cunhabebe (Filho), consegue se salvar por haver estocado pólvora. Porém, mesmo tendo ajudado na vitória do grupo rival é condenado à morte. Na véspera da cerimônia, Seboipepe lhe relata como deverá agir. No dia seguinte o ritual se cumpre.
Essa livre adaptação de Hans Staden meio que às avessas se beneficia tanto das liberdades que o cineasta teve com relação ao texto original quanto da forma poética e desprendida com que é narrado, demonstrando uma simpatia subliminar pelos indígenas. Aqui inexiste a pureza de intenções e a força da Divina Providência como motor para a exaltação do protagonista pelos nativos. Enquanto na narrativa de Staden se trata de um equívoco com relação a sua nacionalidade, aqui é o francês que se pretende fazer passar por português. Do mesmo modo o comerciante português mesmo sabendo que depõe contra a integridade física do protagonista por motivos  comerciais, termina sendo assassinado pelo mesmo. Assim como seu crédito junto ao chefe da tribo se deve menos às artimanhas da Divina Providência que as perpetradas pelo próprio francês. E, por fim, ele é morto e não motivo de posse entre os nativos. Produzido ainda bem próximo do auge do antropofagismo e suas expressões na cinematografia brasileira, muito de seu sucesso se deve ao distanciamento emocional do que é narrado, a belíssima trilha musical, um dos elementos mais importantes para sua organicidade e a boa interpretação do elenco, incluindo Colassanti, bem mais competente aqui que na sua sofrível estréia como ator em outro filme do cineasta, El Justicero (1967). Destaque para a bela seqüência próxima ao final, na qual Seboipepe apresenta ao protagonista como deve se portar diante do ritual de morte que termina com a sugestão do último encontro amoroso do casal, apesar da índia afirmar para o francês que não deixará de comer uma parte de seu corpo. Nessa cena, fica expressa  a dignidade e honra que representa para a nação indígena o ato de canibalismo, numa dimensão do Outro completamente ausente obviamente do texto original e, igualmente, da sua versão cinematográfica homônima dirigida por Luiz Alberto Pereira em 1999, que procura ser mais fiel ao texto original, portanto sempre partindo do ponto de vista do protagonista, além de mais preocupada com valores de produção que instigante ideológica e cinematograficamente como o filme de Nélson Pereira. A narração é pontuada por frases que expressam o ponto de vista dos europeus sobre os indígenas que vão desde a demonização à santificação, a partir de textos de Jean de Léry, Manoel da Nóbrega, Abade Thevet e outros. O prólogo inicial com narração off possui um tom satírico na composição das cenas evocativo dos filmes contemporâneos de Pasolini, sendo seguido por créditos de ilustrações do livro de Staden. Os diálogos em Tupi-Guarani foram escritos por Humberto Mauro. Condor Filmes/Luiz Carlos Barreto Prod. Cinematográficas. 84 minutos.


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