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sábado, 4 de junho de 2016

Filme do Dia: Terra em Transe (1967), Gláuber Rocha


Terra em Transe Poster


Terra em Transe (Brasil, 1967) Direção e Roteiro: Gláuber Rocha. Diretor de fotografia: Luiz Carlos Barreto;  Montador: Eduardo Escorel Música: Sérgio Ricardo. Com: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Glauce Rocha, Paulo Gracindo, Hugo Carvana, Danuza Leão,  Jofre Soares, Modesto de Sousa, Mário Lago, Flávio Migliaccio, José Marinho, Paulo César Pereio, Darlene Glória.
         O jornalista e poeta Paulo Martins (Filho) se encontra baleado e à beira da morte. Momentos de sua trajetória vão sendo delineados. Seu afastamento do político direitista Dom Porfírio Diaz (Autran), quando este chega ao senado de Eldorado. Seu apoio a candidatura do populista Vieira (Lewgoy), que depois de eleito governador da província de Alecrim, promove a repressão. Paulo, um dos mentores ideológicos de sua campanha, sente-se mal quando rechaça um campônes em que vê espelhado sua própria fraqueza e servilismo. O campônes é encontrado morto no dia seguinte, através das mãos do Cel.Moreira. O governador, de mãos atadas, afirma que não irá prendê-lo. Paulo afirma que o assassinato é um absurdo e que irá romper com o governo de Vieira. Vivendo uma profunda crise, ele é consolado por Sara (Rocha), que lhe afirma que “politíca e poesia são demais para um homem só”. Paulo parte para a capital de El Dorado, onde vivencia uma realidade de permissividade e decadência na corte do poderoso industrial nacionalista Julio Fuentes (Gracindo), participando de várias festas orgíacas, na companhia do amigo Álvaro (Carvana) e da amante Sílvia (Leão). Posteriormente, afirma a Fuentes que ele tem os dias contados, já que a multinacional Explint, que colocou o atual presidente no cargo, se encontra incomodada com seu império. Consegue o apoio de Fuentes para a candidatura de Vieira. Retorna a Alecrim e ao trabalho com Vieira, não sem antes ter um encontro dramático, em suas próprias palavras “carregado de ódio e remorso” com seu iniciador no mundo da política, Porfírio Diaz, espécie de pai da pátria, déspota esclarecido, que o chama para voltar a trabalhar com ele. Retorna ao grupo de Vieira, porém em meio a comemoração surda do povo que tem como centro Vieira, sente-se estranho, e constrange uma pessoa do povo que se encontra no momento, Jerônimo (Marinho), a falar. Após estes esboçar alguns clichês sem maior convicção, Martins faz troça afirmando se ainda querem ter o povo no poder. No momento, outro homem, reivindicando ser um verdadeiro homem (Migliacio) do povo, já que pai de sete filhos, pede a palavra e reclama da situação de penúria e opressão em que vive, sendo massacrado física e psicologicamente como extremista. Morto, provoca um silêncio constrangido, antes das discussões. Álvaro presencia o encontro em que é selado um acordo entre Diaz e Fuentes e, ambos, com a Explint, para a derrubada do poder do presidente Fernandez. Diaz exulta: “O povo no poder, isto nunca” e “Se houver eleições Vieira ganha, senão ganho eu”. Álvaro se encontra com Martins na redação do jornal e lhe conta tudo, quando se encontram a sós. Decepcionado tanto com Diaz como com Fuentes, Martins é acusado de ingênuo por Álvaro que afirma para ele que não passa “de uma cópia suja de Diaz”. “É tudo, irei com Vieira até o fim” afirma o confuso Martins, enquanto Álvaro suicida-se. O discurso de Diaz é contraposto ao de Vieira. Diaz é coroado, e torna-se o novo presidente. Martins, baleado quando fugia, morre solitário.
Unindo uma linguagem inovadora que remete a Godard e um discurso político que tematiza com extrema lucidez o fracasso do projeto da esquerda brasileira, em grande parte devido as suas próprias falhas (populismo, presença de uma retórica vazia, idealização de um povo que não só não conhece como teme e submissão), Gláuber realizará um dos filmes seminais da cinematografia brasileira de todos os tempos, negando-se a traçar um retrato esquemático da disputa pelo poder como o de Barravento (1962) e, por outro lado, não deixando espaço para a utopia final sonhada em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Na figura emblemática  do intelectual Paulo Martins, que possui trânsito livre em todos os ambientes, e na sua relação ambígua tanto com Vieira como, e até parece mais profundamente, com Diaz, Gláuber sintetiza magistralmente o que se delineava no campo da política brasileira. O filme inicia com uma panorâmica aérea da costa de El Dorado, que retorna próximo ao final do filme. Mais cerebral - chegando a ser por vezes árido - e menos poético que Deus e o Diabo. Ainda assim apresenta qualidades formais como um sensacional trabalho de câmera (em sua totalidade ou quase na mão), como na seqüência do travelling que atravessa uma galeria, que marca o retorno de Martins a capital de El Dorado ou a montagem paralela que contrapõe os discursos de Vieira (como sempre, rodeado pelo povo) e Diaz (como sempre, sozinho e empunhando a bandeira e o crucifixo) próximo ao final, seja na seqüência em que ocorre duas vezes o mesmo plano em que Sara entra na redação do jornal ou ainda a notável iluminação que faz com que o início de uma cena em que Paulo se encontra com Sílvia no quarto dê a impressão de ser  em negativo. O flashback e a voz over (seja aliados, como na seqüência em que Martins narra quando Álvaro foi lhe contar o conluio entre Fuentes e Diaz, ou isoladamente) são elementos fundamentais da narrativa e bem utilizados. No caso do flashback deve ser frisada a utilização constante de pequenos flashbacks dentro de um flashback maior, provocando uma certa circularidade narrativa - a cena em que Álvaro se dirige à redação para falar com Martins reaparece e, no entanto, não soa supérflua, antes pelo contrário, em grande parte devido ao forte poder que ganha a voz over. Também ao som foi atribuído uma atenção que resultou em rara força dramática, como no momento em que Martins se encontra angustiado com a festiva comemoração a Vieira e a trilha substitui o candomblé por um tema de Villa-Lobos para salientar seu estranhamento com o ambiente e, pouco depois, quando simultaneamente som e agitação se interrompem quando Martins pede que o povo, através de Jerônimo, se expresse, voltando-se instantaneamente todos os olhares para aquele que nunca foi motivo de atenções e se vê completamente pego de surpresa. Também foi dramaturgicamente bem explorada a fala direta para a câmera, que várias vezes é utilizada, como na própria cena que em Martins desmascara o povo, através da figura de Jerônimo. O filme definitivamente rompe com o “bom mocismo” tradicionalmente associado aos intelectuais de esquerda, e apresenta-os como não menos podres, na personagem do fraco Vieira (inspirado na figura de José Sarney, sobre quem Gláuber realizara um ano antes o documentário Maranhão 66), assim como nos personagens de Martins e Álvaro. Também pode ser tomado como uma influência e menos distante da linguagem que seria desenvolvida o  cinema marginal.  A composição da cena final - em algumas versões acompanhada de um desnecessário poema de Mário Faustino (aliás a presença da palavra escrita se faz presente em outros momentos, recurso muito comum em certas vanguardas) - inicia com um minúsculo Jardel Filho tomando uma pequenina porção do quadro à direita, como que refletindo a pequenez do indivíduo frente às forças da história, é de uma grandeza épica/estética de tirar o fôlego. Prêmios FIPRESCI e Luis Buñuel em Cannes. Mapa Filmes. 115 minutos.


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