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sexta-feira, 13 de maio de 2016

The Film Handbook#75: Roberto Rossellini



Nascimento: 08/05/1906, Roma, Itália
Morte:03/06/1977, Roma, Itália
Carreira (como diretor): 1936-1977

Frequentemente desconsiderado como fundador do Neo-Realismo cuja carreira teria degenerado ao início ou final de sua muita publicizada relação com Ingrid Bergman, Roberto Rossellini permanece como um dos mais subestimados cineastas na história do cinema. Explorando os vínculos entre ficção e documentário, observação e educação e indivíduo e sociedade, foi uma importante figura no desenvolvimento do cinema.

Nascido em família rica, Rossellini filmou sem muito vigor diversos curtas experimentais antes de realizar seu longa de estreia com La Nave Bianca, uma elegante narrativa a respeito da vida à bordo de um navio-hospital italiano durante a Segunda Guerra Mundial. Dois outros longas se seguiram, no entanto, antes de Roma: Cidade Aberta/Roma Città Aperta>1, realizado em circunstâncias perigosas e penosas próximo ao final da guerra. Uma narrativa firme e eventualmente melodramática do esforço da Resistência contra os ocupantes nazistas, o filme faz uso de imagens granuladas como as de um cinejornal, locações reais e uma série de atores não-profissionais dando-lhe uma rara força e urgência. Ainda mais impressionante, no entanto, foi Paisà>2, cujas seis histórias, frequentemente escassamente dramáticas dos encontros, parte-cômicos, parte-trágicos entre italianos, alemães e libertadores americanos (diversos deles centrados no tema na incapacidade de comunicação através de uma língua em comum) foram enraizados em locações específicas (o Vale do Pó, a Galeria Uffizi) mas universais em seu retrato de uma nação inteira destruída e dividida pela guerra. Já o gosto de Rossellini por tomadas longas em movimento (mais que montagem e planos aproximados) evidenciou seu desejo de relacionar os indivíduos ao mundo que os cerca; enquanto o pessimismo sombrio de Alemanha, Ano Zero/Germania Anno Zero (sobre um garoto  em uma Berlim devastada do pós-guerra que comete o suicídio após matar seu pai doente, seguindo o conselho de seu professor nazista) foi tanto um grito final de horror na confusão e sofrimento morais trazidos pela guerra, como precursor das análises espirituais sobre sofrimento e salvação que iriam marcar a série de filmes que realizou com Ingrid Bergman.

L'Amore, um tributo em duas partes a Anna Magnani, que interpreta uma mulher sofisticada tentando salvar seu caso amoroso ao telefone e uma miserável que acredita ter se tornado grávida de São José, foi seguido por La Machina Ammazzacattivi, uma estranha comédia sobre uma câmera letal. Então Rossellini realizou Stromboli>3, primeiro dos cinco longas que realizou com Bergman (seu caso e posterior casamento foi acompanhado com insistência e furor por grande número de pessoas ao redor do mundo). Com tudo para ser um extenuante melodrama, no qual uma lituana em exílio sofre  com um casamento bastante tortuoso com um pescador miserável para fugir de um deslocamento forçado para um campo de refugiados,o filme comenta a relação fora da tela entre diretor e atriz, ao mesmo tempo descrevendo os esforços de uma pessoa de chegar a um acordo com a severa sociedade na qual vive. Na verdade, todos os filmes que fizeram juntos apresenta uma preocupação similar em borrar as linhas entre ficção, documentário e (auto)biografia: em Europa '51, uma mulher deseja ajudar os outros após o suicídio de seu negligenciado filho levar seu marido a achar que se encontra insana; em Viagem à Itália/Viaggio in Italia>4 um casal inglês em vias de se divorciar consegue uma ambígua reconciliação temporária (numa procissão religiosa que celebra um milagre), reunidos pelo senso de solidão provocado por sua viagens ao redor da região de Nápoles. Surpreendentemente, Rossellini revela as emoções de seus personagens não através do diálogo ou ações dramáticas (existem longos trechos com ausência de ambas), mas observando suas reações diante do que vêem: posição e movimentos de câmera evocam o espaço que os afasta um do outro e igualmente do mundo que os circunda. Igualmente notável, mesmo tratando seus temas com carregada emoção, ele evita o sentimentalismo, minimizando muitos dos potenciais clímax narrativos; o resultado é sereno, imparcial e lúcido.

O Medo/Non Credo Piú all'Amore, melodrama próximo do noir, no qual a decisão de um homem de punir sua esposa por uma infidelidade menor através de chantagem resulta no rompimento do casamento, assinalou o final da relação pessoal e criativa de Bergman e Rossellini. Desde então, com exceção de De Crápula a Herói/Il General della Rovere/sobre um vigarista que, concordando em auxiliar os nazistas fingindo ser um líder da resistência morto, descobre sua própria capacidade para o heroísmo) e Era Noite em Roma/Era Notte a Roma>5 (história de três soldados fugitivos, um inglês, um americano e um russo que recebem abrigo por parte de uma mulher cujo amante é morto por conta do segredo), Rossellini se concentrou grandemente em documentários e reconstruções históricas didáticas. (Frequentemente realizados para a televisão, esse filmes fazem uso sutil das lentes zoom Pancinor, que ele próprio havia inventado). O objetivo do diretor foi nada menos que a história do mundo delineando progressos sócio-políticos e através de figuras-chave como Garibaldi (Viva l'Italia), o Rei-Sol (O Absolutismo: A Ascensão de Luís XIV>6), Sócrates/Socrates, o cientista e filósofo Blaise PascalSanto Agostinho/Agostino d'Hippona O Messias/Il Messia. Nenhuma tentativa houve, no entanto, de se criar biografias convencionais: as ideias mais que os indivíduos são o foco de atenção, e diálogos e imagens foram compostos com admirável clareza. Com faro surpreendente, Rossellini fez uso dos cenários, figurinos, cores e composições para refletir ideias abstratas: nesse sentido, o método de Luís XIV de manter o poder monárquico sobre uma nobreza conivente é tornado concreto nos visuais absurdamente extravagantes que encoraja na corte, provocando a ruína de seus rivais, e em precisos arranjos simbólicos em um universo dominado por hierarquias complexas e cuidadosamente detalhadas.

Após O Messias, Rossellini planejava realizar um filme sobre Marx; infelizmente, sua morte impediu o projeto. Mesmo que vários de seus filmes posteriores sejam bem distantes do drama tradicional e emocionalmente envolvente, demandando do público um forte compromisso intelectual, sua clareza de argumento e explanação, somado a um estilo visual não formalista, constituem um pouco comum cinema didático acessível. Seja por sua trilogia de guerra, sua obra com Bergman ou os filmes educacionais que realizou para a TV, ele merece ser exaltado como um dos mais inovadores e desafiadores talentos do cinema.

Cronologia
Ao contrário de De Sica, Fellini e Visconti, Rossellini permaneceu fiel ao Neo-Realismo, mesmo transcendendo seus aspectos mais ingênuos; os filmes de Godard, Rohmer, Rivette, Antonioni, Bertolucci, Os Irmãos Taviani, Rosi  e Ermano Olmi testemunham sua enorme influência.

Destaques
1. Roma: Cidade Aberta, Itália, 1945 c/Anna Magnani, Aldo Fabrizzi, Marcello Pagliero

2. Paisà, Itália, 1946 c/Carmela Sazio, Robert Van Loon, Maria Michi

3. Stromboli, Itália, 1949 c/Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana

4. Viagem à Itália, Itália, 1953 c/Ingrid Bergman, George Sanders, Leslie Daniels

5. Era Noite em Roma, Itália, 1960 c/Leo Genn, Giovanna Ralli, Serge Bondarchuk

6. O Absolutismo: A Ascensão de Luís XIV, Itália, 1966 c/Jean-Marie Patte, Raymond Jourdan, Silvagni

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 248-50.


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