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domingo, 15 de maio de 2016

Filme do Dia: Caminho para o Nada (2010), Monte Hellman


Caminho para o Nada Poster


Caminho para o Nada (Road to Nowhere, EUA, 2010). Direção: Monte Hellman. Rot. Original: Steven Gaydos. Fotografia: Josep M. Civit. Montagem: Céline Ameslon. Dir. de arte: Laurie Post, Callie Andreadis & Araceli Lemos. Figurinos: Chelsea Staebell. Com: Shannyn Sossamon, Tygh Runyan, Cliff De Young, Waylon Payne, Dominique Swain, Rob Kolar, Michael Bigham, Fabio Testi.
O cineasta Mitchell Haven (Runyan) pretende realizer uma produção modesta, sem estrelas de Hollywood, mas garantindo a integridade de sua idéia inicial, a respeito do misterioso crime de uma mulher. Para a atriz principal é contratada uma bela jovem Laurel (Sossamon), por quem Haven se envolve emocionalmente, e que é grandemente parecida com a própria jovem assassinada. Um consultor da equipe, Bruno Brotherton (Payne), tenta seguidamente alertar o cineasta sobre sua atriz principal ser uma farsante, envolvida com o crime. Ela tenta pressionar Mitchell a demitir Brotherton, o que ele termina por fazer. Após seu afastamento da equipe, ele visita o quarto do casal, e mata  a garota sendo morto por Mitchell que, preso, apresenta a versão final do filme para Nathalie Post (Swain), outra integrante da equipe.
Levando ao limite do incomensurável a teia entre realidade e ficção, habitualmente bastante bem delimitada em filmes que, como esse, abordam o cotidiano do processo produtivo de uma filmagem, Hellman (cineasta considerado cult sobretudo por conta de duas produções dos anos 1970, Galo de Briga e Corrida sem Fim), faz uso de seu habitual distanciamento emocional que, somado a própria dificuldade programada de se ter acesso a elementos lacunares da trama, além do fato de não lidar com astros hollywoodianos como habitual (referência como essa devidamente apropriada pela figura de seu jovem e belo alter-ego), tornam-o potencialmente pouco voltado para a simpatia de um público mais amplo. Hellman, que como boa parte dos cineastas de maior talento autoral e influência dos cinemas novos europeus que despontou com maior destaque nos anos 1970, sentiu o impacto em sua própria carreira, do retorno a referência maior de produções visando grande lucro, a partir de meados da década, tendo muitas vezes realizado produções mais associadas a filmes de gênero menores. Aqui,a inexistência de trilha sonora, a intricada teia entre ficção e realidade, parece extrapolar a determinado momento, os próprios limites da diegese auto-imposta, com um Mitchell filmando aparentemente a própria equipe de Hellman no momento do crime. Ou seria apenas o próprio filme observado sob a perspectiva da mente atormentada de seu protagonista, como boa parte dos mind games contemporâneos? Alusões ao universo do próprio cinema surgem esporadicamente ao longo da trama, sejam diretamente nas sessões de filmes assistidos pelo casal Mitchell & Laurel (As Três Noites de Eva, O Sétimo Selo, O Espírito da Colméia), seja nas referências as possibilidades de contratação de Di Caprio ou Scarlett Johannson), ou indiretamente em referências a filmes tão diversos quanto o clássico Crepúsculo dos Deuses (1950), no momento em que o cineasta filma a chegada dos policiais que irão prendê-lo ou Cidade das Ilusões (1972), de Huston, ao incluir a canção Help me Make Through the Night, do mesmo, em seu prólogo. A relação, em última instância, ambígua, entre ficção e realidade, a partir da própria diegese, torna-se complexificada pela incorporação de imagens dentro de imagens, como é o caso mais evidente da tela de computador, numa dimensão de mise en abyme evocativa do cinema noir um dos gêneros que, juntamente com o cinema moderno, Hellman demonstra ser tributário nessa produção. É evidente que o filme tampouco possa ser pensado sem o que David Lynch realizou anteriormente, ainda que o estilo conciso de Hellman não precise fazer uso de uma referência fantástica ou sobrenatural para justificar seu estranhamento. Tigers Den Studio para Monterey Media. 121 minutos.

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