CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Filme do Dia: Eu Sou Ingrid Bergman (2015), Stig Björkman

Eu Sou Ingrid Bergman Poster

Eu Sou Ingrid Bergman (Jag ar Ingrid, Suécia, 2015). Direção: Stig Björkman. Rot. Original: Stig Björkman, Dominika Daubenbüchel & Stina Gardell. Fotografia: Eva Dahlgren & Malin Korkeasalo. Música: Eva Dahlgren & Michael Nyman. Montagem: Dominika Daubenbüchel.
Documentário que privilegia o lado pessoal de Ingrid em relação aos filmes dos quais participou e seu convívio com a comunidade hollywoodiana. Guiado pelos diários da atriz, recorte bastante recorrente em produção biográfica recente, conta com o apoio sobretudo de seus filhos de suas duas primeiras uniões que traçam como que uma justificativa para sua trajetória tendo como “motivação” a morte de todos os seus familiares próximos já em 1929, com a morte do pai – seus irmãos não haviam tampouco vingado, sua mãe morreu quando tinha três anos e dela não guarda lembrança. E, mais especificamente, de associar seu gosto de ser filmada ou fotografada como um ato de entrega para a figura que a primeiro a registrou, o pai. Tão ou mais importante quanto seus diários, são as filmagens amadoras realizadas por ela ao longo de sua vida e que se somam às que já eram efetuadas pelo próprio pai, proporcionando uma iconografia dela em praticamente todas as épocas, algo incomum para os tempos em que viveu – sobretudo sua infância na segunda década do século, quando ainda tão poucos tinham acesso a produzir sua própria imagem em movimento. Já de início Bergman comenta sobre as mulheres que foram fundamentais para ela se tornar quem foi: Ruth Roberts, tradutora de origem sueca que a ajudou a compreender não apenas a língua e seu sotaque, mas também a cultura norte-americana; Irene Selznick, mulher do célebre produtor David, que a inseriu socialmente na colônia cinematográfica e Kay Brown, sua agente. Imagens de felicidade doméstica são elaboradas para a câmera a partir das filmagens em 16 mm (boa parte delas em cores) que contemplam tanto o período em que ainda se encontrava casada com o médico sueco Petter Lindström, com quem teve sua primeira filha, Pìa, como sua união com Roberto Rossellini, que gerou um dos maiores escândalos envolvendo uma atriz de sua dimensão à época. A união da queridinha da América com o fauno italiano quando ambos ainda se encontravam formalmente casados, deixando marido e filha para trás no caso dela, chegou a ser comentada no Senado americano (“das cinzas de Ingrid Bergman surgirá uma Hollywood melhor”). E também imagens extra-muros domésticos como as da viagem que empreendeu com Lindström pela Europa em 1938 e que os flagra próximos ao carro e  à margem de uma manifestação da Juventude Hitlerista. Imagens de arquivo apresentam uma corajosa Ingrid, indisposta a capitular diante da capciosa pergunta de um jornalista quando de uma coletiva de seu retorno aos Estados Unidos sete anos após sua partida se se arrependia de algo que havia feito. Ou ainda Ed Sullivan em seu célebre programa indagando do público americano se desejava ou não a presença da “controvertida” atriz no mesmo. Existem referências breves a suas ligações amorosas com o realizador Victor Fleming e o fotógrafo Robert Capa, mas de uma maneira geral se evita tocar em assuntos polêmicos como política (sua simpatia pelos republicanos) e se cria uma curiosa tensão entre um filme que celebra o centenário do nascimento de um dos maiores mitos femininos do cinema e a presença constante dos que dela foram íntimos, sobretudo seus filhos que, em meio ao fogo cruzado da persona pública e da figura materna, desfiam em maior ou menor grau certo ressentimento contido pela sentida ausência dela na infância e adolescência, sendo a voz mais presente nesse sentido a de sua primogênita, de rosto aparentando bem menos que seus então inacreditáveis 77 anos. Dos filhos que teve com Rossellini, Isotta é a que menos fala, Robertino o que tem as tiradas mais engraçadas (como a de seu terror, quando criança, de testemunhar a mãe ser “queimada” diante de si, no palco, numa de suas encarnações de Joana D’Arc) e Isabella, compreensivelmente, a quem mais contribui e a mais reflexiva sobre o papel da mãe em sua relação com o cinema – teria aprendido de Renoir, o papel social do cinema para além de seu imperativo pessoal de fugir do cansaço de si mesma e de seu mundo. Pontuado por frases da própria Bergman, o filme parece ir além do mero exercício de encomenda, provavelmente produto de alguém de grande admiração pela atriz, que não se rende a uma metragem mais diminuta ou sintética e que, via de regra, consegue sustentar tal capricho sem a necessidade de qualquer ousadia formal. Ao menos em dois momentos enquadra e entrevista coletivamente primeiro os três filhos com Rossellini e, posteriormente, Sigourney Weaver, assistente de produção em uma montagem teatral com Ingrid, Isabella e uma irreconhecível Liv Ulmann – sobre Sonata de Outono, os bastidores da filmagem, entrevistos aqui, dão compreensão a Ingrid de quão difícil era ela própria no trabalho. Fiel ao que Isabella Rossellini expressa nesse momento, o filme guarda um lugar de nota de rodapé para o universo hollywoodiano, completamente secundário em relação ao que escreve sobre os filhos. Chimney/Mantaray Film. 114 minutos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário