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domingo, 5 de outubro de 2014

Filme do Dia: Apa (1966), István Szabó


Apa (Hungria, 1966). Direção e Rot. Original: István Szabó. Fotografia: Sándor Sára. Música: János Gonda. Montagem: János Rózsa. Cenografia: Károly Molnár. Figurinos: Erzsébet Mialkovszky. Com: András Bálint, Miklós Gábor, Dániel Erdély, Katy Solyóm, Klári Tolnai, Szusza Ráthonyi, Ilone Pétenyi, Rita Békés.

Táko (Erdély) é uma criança que, após perder o pai durante a Segunda Guerra, torna-se um exímio fantasista a seu respeito, inventando situações  dele para as outras crianças. Jovem (Bálint) e apaixonado por Anni (Solymón), que perde os pais nos campos de concentração, Táko continua, de forma mais discreta, a fantasiar sobre o pai morto, enquanto sua mãe encontra-se com um homem mais velho. Táko viaja com amigos de trem e ocasionalmente passa pelo vilarejo onde o pai havia nascido, assim como ele e ao qual decide retornar após longo tempo para tentar encontrar pessoas que conheceram seu pai. Táko acredita que necessita fazer algo pelo qual virá a ser lembrado e sair da sombra da imagem paterna, como atravessar a nado o rio Danúbio.

Fazendo parte de uma seleta lista de uma dúzia de títulos considerados os melhores de todos os tempos na cinematografia húngara, o filme sutilmente incorpora a proximidade com o universo do realizador, recurso que havia se tornado coqueluche do cinema moderno do período (Terra em Transe, Blow Up, Persona, O Desafio, etc.), talvez, inclusive, de forma autobiográfica. Ainda que, ao centrar boa parte de sua ação na infância, tal proximidade não seja tão incisiva, ou mesmo em sua juventude, onde o cinema surge como a possibilidade de atuação em um drama sobre as vítimas do nazismo, o filme deixa referências na própria dimensão visual – quando vai entrevistar pessoas sobre o seu pai, o estilo do filme se torna próximo do documental, ganhando o protagonista, nunca observado em cena, o status de documentarista. Sua austera e distanciada narrativa, magnificamente fotografada em p&b, e cuja trilha musical, habitualmente ausente, é feito uso intenso em determinados trechos, entremeia sua narrativa realista com cenas documentais de guerra e a aberta fantasia com que Táko procura lidar com a ausência paterna, evocada em momentos tais como o que assiste uma parada em honra às figuras da resistência mortas em combate, e apenas consegue encontrar a figura paterna entre todos os homenageados. Por mais que aponte para uma possibilidade de superação, a partir do momento em que o personagem pela primeira vez admite a sua amada  mentir sobre a figura paterna, o filme finda com ele próprio se forçando a ir além de si para buscar algum reconhecimento que remeta a algo que o torne tão ilustre quanto pensa ser o pai. Ou seja, longe de esboçar qualquer sentido de superação como seria quase obrigatório no cinema clássico e mesmo boa parte da produção contemporânea, pois seu esforço para se afastar dessa pressão da imagem paterna acaba se dando a partir de seu referencial.  Sua modernidade se encontra longe de excessos estilísticos, sendo quase sempre bastante demarcados os momentos de fantasia, e mesmo nesses seus absurdos parecem ter limites que apontam ocasionalmente mais para o cinema – caso da primeira evocação fantasiosa do pai, em ritmo de filme de aventura – do que para uma evocação onírica-surreal. Quando essa se dá, imediatamente fica explicitado se tratar de um sonho. O cartaz de O Grande Ditador surge na marquise de um cinema na época da guerra. O recurso de se voltar para o imaginário infantil como alegoria de épocas de grande relevância para a nação ou marcadas por um período autoritário tem sido uma constante na histórias das cinematografias as mais diversas como a brasileira (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), espanhola (Cria Cuervos), alemã (O Tambor), italiana (Amarcord), francesa (Adeus, Meninos), dentre tantas outras. MAFILM3 Játékfilmstúdió para Mokép. 98 minutos.

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