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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Filme do Dia: Ossos (1997), Pedro Costa

Ossos (Portugal/França/Dinamarca, 1997). Direção e Rot. Original: Pedro Costa. Fotografia: Emmanuel Machuel. Montagem: Jackie Bastide. Dir. de arte: Zé Branco. Figurinos: Isabel Fávila. Com: Vanda Duarte, Nuno Vaz, Mariya Lipkina, Isabel Ruth, Inês de Medeiros, Miguel Sermão, Berta Susana Teixeira, Clotilde Montron, Zita Duarte.
Ao retornar do hospital com seu recém-nascido, Tina (Lipkina) tenta se sucidiar e matar a criança com gás. Seu namorado (Vaz), salva a criança e Tina, e leva a criança para pedir esmola nas ruas da cidade, tentando inclusive vendê-la. Após a criança ser hospitalizada, o rapaz tenta deixar a criança com uma enfermeira, Eduarda (Ruth), patroa de Clotilde, amiga de Tina e uma prostituta (Medeiros). Enquanto isso Tina e Clotilde tentam reaver a criança e se vingam do rapaz.
Com um enredo quase diluído em sua estrutura narrativa extremamente moderna, distanciada e seca, evocativa de Bresson igualmente na utilização de boa parte de um elenco não profissional numa busca de negação da “interpretação”, esse filme já antecipa muitas das estratégias dramáticas do mais interessante No Quarto da Vanda (2000), no qual Costa radicalizará em sua opção por uma desdramatização e ausência de enredo e motivações concretas para as ações dos personagens. Em certo sentido, esse filme ainda pode ser tido como mais próximo de uma leitura autoral de viés modernista no estilo alguns realizadores europeus contemporâneos (tais como os irmãos Dardenne, que inclusive realizaram um filme, A Criança, de temática semelhante, mesmo guardando as devidas proporções, pois o filme dos realizadores belgas ainda se utiliza de um estilo bem mais convencional de apresentação da narrativa). Algo que No Quarto da Vanda, que tem como protagonista justamente a atriz principal desse filme vivendo ela mesmo, irá de certo modo implodir, com uma proposta estética bastante peculiar e instigante. Destaque para a cena em que o pai da criança a segura em seu colo e tenta, sem sucesso, alimentá-la através de alimentos mastigados por ele próprio. Também já se apresentam aqui uma opção pela iluminação natural, que deixa boa parte das cenas numa penumbra que sequer se percebe o rosto do ator e pela descrição cuidadosa dos ruídos no mesmo bairro popular de Fontainhas, que serão refinadas no filme posterior. Prêmio de fotografia no Festival de Veneza para Machuel, que foi assistente de câmera de Bresson. Gémini Films/IPACA/Madragoa Filmes/RTP/Zentropa Ent. 94 minutos.


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