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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Filme do Dia: Não Matarás (1988), Krzysztof Kieslowski



Não Matarás (Krótki Film o Zabijaniu, Polônia, 1988) Direção: Krzysztof Kieslowski . Rot.Original: Krzysztof Kieslowski & Krzysztof Piesiewicz . Fotografia: Slavomir Idziak. Música: Zbigniew Preisner. Montagem: Ewa Smal. Com: Miroslaw Baka, Artur Barcis, Stanislaw Gawlik, Krzysztof Globisz, Stefania Iwinska, Grazyna Szapolowska, Jan Tesarz.

       Um motorista de táxi (Tesarz), quando vai saindo para seus afazeres cotidianos,  quase é atingido por um gato recentemente morto e torturado por um grupo de crianças. Jacek (Bara) ronda sem rumo pela cidade. Observa fotos de primeira comunhão e entra numa  uma loja onde pede para que a moça amplie uma foto antiga, perguntando-lhe insolitamente se é verdade que as fotos revelam se a pessoa ainda realmente permanece viva ou não. Um jovem estudante de direito Piotr (Globisz) realiza uma prova para conquistar o direito de advogar. O  motorista de táxi limpa seu carro, enquanto um casal se aproxima e pergunta se ele está livre. Ele responde grosseiramente, e o casal diz que vai esperar em um abrigo porque o frio é grande. Jacek derruba o jovem que tenta assediá-lo em um mictório público. O motorista de táxi sai com seu carro e não liga para as reclamações do casal no abrigo. Piotr comemora a sua aprovação como advogado. Comemora no sinal, gritando de sua motoneta para uma mulher que se encontra estacionada ao seu lado, provocando uma reação depreciativa no motorista de táxi, que observa a cena. Vai comemorar com sua namorada em um café, mesmo café em que Jacek vai e se diverte jogando um pouco de bolo na vidraça que duas meninas observam, sorrindo para ele. Ele sorri para elas. Porém não para um minuto sequer de enrolar um grosso barbante em sua mão. Se dirige para o táxi que se encontra estacionado e quando dois homens também se aproximam, afirmando tratar-se de uma questão de urgência e perguntando se ele vai ao mesmo destino que eles, ele afirma que não, embora fosse. Mais adiante, pede que o motorista vá por um caminho mais longo do que o que poderia ser feito. Quando chega em um trecho deserto, ataca-o por trás com seu barbante e o sufoca contra o pára-brisa do carro. A mão do motorista dispara involntariamente a buzina e ele tem que pegar uma tora grande de madeira para quebrá-la. Após uma sessão grande de sevícias, quando vai jogar o corpo no rio e percebe que ainda se encontra vivo, Jacek desfere o golpe de misericórdia, jogando três vezes uma grande pedra contra a cabeça do motorista. Após sua prisão, é julgado, tendo como advogado de defesa Piotr. Porém é condenado à pena de morte. O advogado fica extremamente chocado. Seus familiares choram no tribunal. Quando é levado para o cárcere seu advogado chama-o de longe. Ainda perplexo vai falar com um famoso criminalista, que lhe adverte ser ele muito sensível para tal profissão. Recebe a notícia de que Jacek deseja falar com ele antes da condenação. Apesar de contar com apenas trinta minutos, é constantemente interrompido pelo carcereiro, que quer saber se a conversa já acabou. Jacek pergunta-lhe sobre sua mãe, conta-lhe sobre sua tragédia pessoal - quando morava no campo, após uma grande bebedeira com um amigo, seu amigo acabou atropelando e matando com um trator sua jovem irmã de apenas 13 anos - a mesma da foto. Que se não fosse por tal fato provavelmente não teria saído do campo e não teria ocorrido o que houve. Pede para que o advogado recupere a foto de sua primeira comunhão. Extremamente perturbado, Piotr assiste os momentos finais que antecedem (em certo momento ele tem um último momento de revolta, mas acaba sendo dominado) e a própria execução de Jacek. Do lado de fora do presídio, chora em seu carro.
Tudo no filme de Kieslowski leva a criação de um ambiente de hostilidade do mundo que circunda Jacek e que o leva a seu crescente ceticismo, niilismo e anti-sociabilidade perversa (que tem como antepassado legítimo o  Rashkolnikov de Dostoievski)- em uma das cenas, ele joga uma pedra, de cima de um viaduto, que acaba provocando um acidente em uma avenida - seja as frias e desumanas ruas que percorre, sem maior significação para ele, a falta de amigos, etc. Ainda consegue se relacionar com uma jovem, com quem passeia de carro logo após o assassinato, quando no carro ainda pende um pedaço da carne de seu dono. Tudo acentuado pela fotografia quase monocromática que valoriza os tons pastéis e o uso de filtros que acentuam o isolamento afetivo de Jacek para com o mundo que o circunda, e ao mesmo tempo o aponta como que para uma grande lente de microscópio onde um entomologista - o diretor? nós, expectadores? - observa(mos) detidamente cada um de seus passos. Trilhando o paralelo de dois jovens de idade semelhante em seu assimétrico “desenvolvimento” na sociedade: exatamente quando Piotr trilha os degraus para chegar ao posto de advogado, o jovem começa a  maquinar o seu torpe crime - depois o advogado relembrará culpado, conversando com o criminalista, o momento que cerca de um ano antes ele viu a cena do jovem enrolando o barbante em sua mão no café. Esse duplo assimétrico formado pelo jovem advogado e Jacek tem seu ponto de confluência no motorista de táxi que, por sinal, deixa também evidente traços perversos e de insensibiliade - ainda que de pequenas perversões e insensibilidade geridas no nível da sociabilidade como buzinar espantando os cachorros que um homem leva na rua ou afirmar para um amigo, quando vai por o gato morto no lixo, que detesta gatos. Adaptação para o cinema de um dos episódios da série Decalógo que dirigiu para a tv polonesa, e que teve outro episódio (Não Amarás, 1988) adaptado para o cinema,  talvez ainda mais bem sucedido que este. Tocante trilha de Preisner. Zespol Filmowy "Tor". 84 minutos.

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