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sábado, 11 de outubro de 2014

Filme do Dia: A Tara Maldita (1956), Mervin LeRoy


A Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956). Direção: Mervin LeRoy. Rot. Adaptado: John Lee Mahin, baseado na peça de Maxwell Anderson e no romance de William Marsh. Fotografia: Harold Rosson. Música: Alex North. Montagem: Warren Low. Dir. de arte: John Beckman. Cenografia: Ralph S. Hurst. Figurinos: Moss Mabry. Com: Nancy Kelly, Patty McCormack, Henry Jones, Eileen Heckart, Evelyn Varden, William Hopper, Paul Fix, Jesse White.

Após se despedir do marido, Kenneth (Hopper), Christine se despede igualmente da filha Rhoda (McCormack) que vai para um passeio com crianças de sua escola. A morte de um garoto afogado, e o fato de sua filha ser a última a tê-lo visto vivo, assim como sua aparente indiferença ao fato, faz com que Christine começe a desconfiar da filha. Para aumentar sua tensão, ainda existem as teorias dos amigos sobre psicopatia infantil, a presença da mãe do garoto morto, Hortense (Heckart), alcoolizada, a ausência do marido e a descoberta,  através do pai, Richard Bravo (Fix), que ela fora adotada e que sua mãe fora uma psicopata. Para completar, Christine flagra Rhoda tentando se desfazer das sandálias que batera no garoto morto e confessa que fora culpada de sua morte. Atormentada por tudo e todos, Rhoda testemunha, com os próprios olhos, mas uma ação criminal da filha, a morte do jardineiro Leroy (Jones) e, sem mais saber como lidar com a situação, tenta o suicídio.

Sem a moldura do excessivamente grotesco que lhe daria um Robert Aldrich (alguns anos após, diga-se de passagem) ou a suavização que o viés de um conto fabular no estilo O Mensageiro do Diabo (onde, aliás, às crianças é reservado o seu habitual papel de inocência), essa narrativa sobre uma psicopata infantil torna-se ainda mais ousada. Por mais que a interpretação de McCormack seja irregular, embora bastante convincente para os padrões da época em alguns momentos, por mais que o filme talvez buscasse por demais um sucesse d’scandale, não há como não destacar a forma explicitamente irônica com que LeRoy desconstrói rapidamente a idílica família norte-americana. Porém, ao contrário do seminal A Sombra de uma Dúvida, de  dez anos antes, de Hitchcock (com quem igualmente compartilha a criação crescente da tensão a partir da fala paralela sobre crimes por parte do grupo de amigos de Monica, algo habitual nos filmes do mestre britânico), o faz a partir de um recorte que poupa o “meio social” ao apontar para a confirmação da teoria genética, apresentada de forma involuntariamente ridícula no momento em que Christine se descobre não apenas filha adotada, mas oriunda da família de um psicopata. O filme, aliás, soa menos interessante enquanto estudo da psicopatologia infantil, como se poderia supor, que da histeria feminina, acrescida sempre por uma incessante tensão sufocante e destituída do suporte masculino, comodamente posto fora de cena por motivos de trabalho logo ao início do filme. É igualmente um filme em que a relação de cumplicidade entre mãe-filha, acaba levando ao drama da divisão da figura da mãe, entre o amor materno e a consciência dos horrores perpetrados pela filha. Com diálogos tão abertamente escatológicos, como o do jardineiro que ameaça a garota do risco da cadeira elétrica infantil ou da mãe pedindo para que a filha descreva com detalhes como matou suas vítimas, é de se espantar que tenha conseguido driblar o Código de Produção, mesmo levando em conta a relativa permissividade dos anos 50 em relação as duas décadas anteriores, e mesmo tendo em conta  o fato de ter feito alguns ajustes para se enquadrar nele; no projeto inicial, ainda mais ousado, a garota permanecia viva, a mãe morta. A maior parte do elenco compôs a peça teatral de Anderson que serve como uma das fontes do filme. Seu final, apelando de forma dantesca para uma intervenção deus ex-machina, confirma, com sua brusquidão e igualmente ironia, uma saída possível para um pouco crível “final feliz”. Warner Bros. 129 minutos.


4 comentários:

  1. Não gostei nem um pouco de ver esse filme. Achei a garotinha muito inconvincente e a personagem da mãe, pouco crível. Também me incomodei com a encenação, que tem algumas cenas que me parecem bizarras, como quando o jardineiro pega fogo. De interessante, a ideia da maldade passar de pai pra filho pelos genes, como você bem mencionou no texto. Você explicou de maneira bem mais completa por que gostou do que expliquei por que não gostei. Não sei se consegui entrar no clima dessa obra. Enfim, há de se conceder que o tema dela é mesmo incomum para produções desse período.

    Cumps.

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  2. Sim, há vários problemas, o filme é irregular concordo, mas acho ele tão ousado para a época. esse final tb completamente inconvincente (e aí, certamente por pressão da censura) tb me incomoda. Embora a trama enfatize essa questão genética associada a psicopatologia da criança, acho mais interessante se pensar o filme como uma espécie de fantasia histérica materna. Mas caso vc não conhecesse e tenha visto por conta do blog já me dou por satisfeito.

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  3. Talvez o que mais me chame a atenção nele é a apresentação do disfuncional numa década que se queria vender a todo custo o "american way of life"; porém o outro lado da moeda se fazia sentir em filmes como esse, os de Nicholas Ray, Douglas Sirk, Samuel Fueller, Richard Brooks e outros que parecem por dedos nas feridas do Sonho Americano, algumas vezes de forma mais velada, como aqui.

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    1. Por esse lado, não há como negar, você tem razão. A família típica americana é subvertida no filme. Muita gente acha que Hollywood começou a espinafrar o americano médio com Beleza Americana, mas percebe-se que já faziam isso há meio século. Eu não dei valor a isso ao analisá-lo, talvez por não ter gostado de vê-lo. Se algum dia reassistir, vou tentar manter isso em mente.

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