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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Filme do Dia: A Vida Sonhada dos Anjos (1998), Erick Zonca



A Vida Sonhada dos Anjos (La Vie rêvée des anges, França,1998). Direção: Erick Zonca. Rot. Original:  Erick Zonca &  Roger Bohbot. Fotografia: Agnès Godard. Música: Yann Thiersen. Montagem: Yannick Kergoat. Dir. de arte: Jimmy Vansteenkiste. Figurinos: Françoise Clavel.Com: Élodie Bouchez, Natacha Régnier, Grégoire Colin, Jo Prestia, Patrick Mercado.
     Isa (Bouchez) se encontra em péssima situação, sem moradia e enfrentando o frio vendendo toscos cartões que ela mesma realiza. Um homem em um bar lhe sugere que vá trabalhar como costureira com máquinas industriais. Lá se aproxima de Marie (Régnier) e pergunta se pode passar a noite em sua casa. Tornam-se amigas inseparáveis e quando Isa é despedida por realizar serviço mal feito, Marie também pede suas contas. Elas moram em um apartamento de mãe e filha que se acidentaram gravamente em um desastre automobilístico. Isa, que eventualmente lê o diário da garota que agora se encontra em coma, passa a se interessar por ela e a visitar regularmente no hospital. Ao mesmo tempo, continua com Marie procurando emprego ou correndo atrás de homens. Tornam-se amigas de dois seguranças de clubes noturnos, Charly (Mercado), que passa a viver um relacionamento com Marie que, no entanto, não gosta dele e Fredo (Prestia), que gosta de Isa, embora essa deixe claro que não pretende viver nada com ele. Descobrem que o dono de um carro de luxo que Marie chutara e quebrara uma luz é Chris (Colin), dono da casa noturna que Charly e Fredo trabalham. Chris se aproxima de Marie e passam a viver uma relação intensa. Vítima de sua instabilidade emocional e de sua grande ansiedade para mudar de vida, Marie negligencia gradualmente sua amizade com Isa, que continua a visitar a garota, fazendo leituras de seu diário. Também termina sua ligação com Charly. A mãe da garota acidentada morre. O irmão dela aparece e afirma que o apartamento deverá ser vendido no final do mês. Chris aparece e diz a Isa que avise Marie que não quer mais se encontrar com ela Angustiada com toda a situação, de eminente despejo, ira e ilusão de Marie e a situação da garota em coma, Isa vive uma noite de profundo desespero. O ponto final no relacionamento com Marie se dá quando Isa lhe conta a respeito da visita de Chris e essa imagina que Isa tomara parte contra ela na situação. Porém, quando todas as esperanças pareciam se encontrar perdidas, no hospital ela fica sabendo que a garota voltara a reagir. Pensa em visitá-la, mas acaba desistindo de última hora, embora não se contenha de felicidade. Retorna ao apartamento, que já abandonara há algum tempo, e deixa uma mensagem para Marie sobre a recuperação da garota. Quando vai saindo presencia o último gesto de Marie, que se suicida pulando pela janela. Isa opta por continuar sua vida, trabalhando como costureira.
Com um certo realismo cru que lembra o universo de O Ódio (1995), de Matthieu Kassovitz, que também trata de jovens marginalizados na França contemporânea, o filme de Zonca, no entanto, também se aproxima de um melodrama de cunho mais tradicional. Ao contrário de um universo masculino, e permeado pela violência, dos bairros de imigrantes do filme de Kassovitz,  Zonca consegue descrever com extrema sensibilidade o universo feminino das duas protagonistas francesas. O que o filme não potencializa em termos de crítica social ele consegue aprofundar na lírica descrição das carências econômicas e, sobretudo, afetivas de seus personagens. Drama profundamente moral e de coloração cristã ao contrapor a desesperança e orgulho de uma Marie que afasta-se da amizade e de outros valores de seu mundo presente quando vê-se próxima de uma solução afetiva e financeira para sua vida à utopia e sonho de uma Isa humilde, que sonha com a recuperação da jovem em coma, da forma mais desinteressada possível e que não se cansa de procurar qualquer tipo de emprego, como símbolo da necessidade de não se perder a esperança na vida e em si próprio. A concretização da oposição entre os dois personagens se complemente no final, onde ao suicídio de Marie se contrapõe uma Isa que volta a trabalhar e continuar sua vida. Em grande parte o poder do filme se deve ao telento de suas duas protagonistas, que conseguem dar uma completa verissimilitude aos seus personagens: Bouchez, uma das maiores interprétes do novo cinema francês, como já havia demonstrado em Rosas Selvagens (1994), de André Techiné, que encontra um par à sua altura em Natacha Régnier, com quem dividiu o prêmio de interpretação em Cannes. CNC/Diaphana/Canal+/ Les Productions Bagheera/ Fondation GAN/FR 3/  Procirep. 113 minutos.


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