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domingo, 19 de outubro de 2014

Filme do Dia: A Dama Enjaulada (1964), Walter Grauman


A Dama Enjaulada (Lady in a Cage, EUA, 1964). Direção: Walter Grauman. Rot. Original: Luther Davis. Fotografia: Lee Garmes. Música: Paul Glass. Montagem: Leon Barsha. Dir.de arte: Rudolph Sternad & Hal Pereira. Cenografia: Sam Comer. Com: Olivia de Havilland, James Caan, Jeniffer Billingsley,  Jeff Corey, Ann Sothern, Rafael Campos, William Swan, Charles Seel.

Velha escritora, a Sra. Hylard (Havilland), fica presa no elevador de sua própria mansão, enquanto o filho, Malcolm (Swan), atormentado por sua possessividade, deixa uma carta em que promete se suicidar caso ela não atenda seu telefonema. Sua casa é invadida pelo vagabundo George (Corey) e a prostituta Sade (Sothern), que aproveitando-se da situação, resolvem pilhar tudo. Eles são, no entanto, surpreendidos, pela gangue juvenil liderada pelo anárquico Randall (Caan), sua namorada Elaine (Billingsley) e o latino Essie (Campos), que iniciam uma série de jogos sádicos que culminam com o assassinato de George. A gangue é surpreendida por profissionais do ramo, que trabalham para um idoso antiquário (Seel), que leva todo o produto do roubo. Com os olhos furados pela Sra. Hylard, Randall é atropelado e finalmente os eventos alucinantes que ocorreram na casa ganham alguma notoriedade extra-muros.

O excesso desse filme provocativo que pretendia sobretudo chocar as platéias da época não deixa de ser percebido ainda hoje, quarenta anos depois, tanto no seu aspecto negativo quanto positivo. As caracterizações dos personagens, por exemplo, ao mesmo tempo que caricaturas grosseiras do que se imaginava serem os excluídos sociais do período, ao mesmo tempo acabam evocando uma interpretação pseudo-teatral que quase rompe com os efeitos de verossimilhança naturalista padrões da cinematografia norte-americana. O mesmo pode ser dito de seu tosco enredo que,  longe de crível, serve de trampolim para que o cineasta, de maneira tipicamente voyeurista e quase mesmo perversa, visite ao menos superficialmente o que ele acredita serem algumas das máculas da sociedade americana, sobretudo do ponto de vista moralizante. Enquanto o drama típico de invasão domiciliar por elementos oriundos de outro meio social conquistou sua versão mais clássica com Horas de Desespero (1955), de William Wyler, esse filme se encontra no meio termo entre essa visão de uma média burguesia vitimizada pelos cruéis invasores e uma visão mais tipicamente anti-conformista presente em produções que lhe são quase contemporâneas como Armadilha do Destino (1966), de RomanPolanski. Com personagens chapados e sem qualquer profundidade psicológica, à guisa dos cacoetes que cada um representa no meio social – a matrona arrependida, o transviado latino, a prostituta de bom coração – se chega a uma espécie de teatro bufo, que pouco ou nada de substancial consegue extrair. Por exemplo, a perda de “dignidade” da dama de modos aristocráticos ao início do filme e descabelada após uma resignada persistência no elevador enguiçado sugere algo semelhante aos retratos da decadência da pose burguesa em uma situação extremada tal e qual O Anjo Exterminador (1962), de Buñuel, mas fica nisso e logo se dissipa. Para ilustrar ainda mais sua tentativa de criar um micro-cosmo do absurdo na mansão, são introduzidos ocasionalmente alguns planos que descrevem o transcorrer das banais atividades cotidianas a poucos metros da casa. A mescla do absurdo com o cotidiano se dá com a saída da protagonista completamente tresloucada e o delinquente para o “mundo exterior”, que continua os ignorando por completo até que se suceda uma morte. Porém, quando se compara tal representação da postura semelhante de Buñuel nos planos que apresenta o espaço externo à mansão onde se encontram confinados seus personagens, percebe-se a ausência de sutileza e o que poderia ser considerado de um escracho saudável se transforma em lugares-comuns banais sobre o individualismo moderno – representando pelas buzinas incessantes que pouco se importam com o atropelamento do delinquente. AEC/Luther Davis Prod. para Paramount Pictures. 94 minutos.


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