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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Filme do Dia: Vá e Veja (1985), Elem Klimov


Vá e Veja ( Idi i Smotri, URSS, 1985) Direção: Elem Klimov. Rot.Original: Elem Klimov&Ales Adamovich. Fotografia: Alexei Rodionov. Música: Oleg Yanchenko. Com: Alexei Kravchenko, Olga Mironova, Vladas Bagdonas, Liubomir Laucevicius, Viktor Lorents, Juris Lumiste.
     1943. Florya (Kravchenko), jovem de 14 anos que vive em aldeia bielorrusa, pretende voluntariamente se alistar junto aos homens do Exército que passam, para o desespero da mãe, que pretendia que ele ficasse para cuidar dela e de suas duas outras filhas gêmeas. Ao partir com o Exército, Florya logo percebe que a realidade que terá que enfrentar é bem mais dura que imaginava. Conhecido apenas como novato, é constantemente humilhado pelos colegas de tropa e deixado para trás quando o pelotão abandona a cidade. Seu sofrimento acaba coincidindo com o sofrimento de uma garota (Mironova), abandonada pelo oficial com quem mantivera relações. Ambos vivem um momento de brincadeira na floresta até voltarem à realidade com um massivo bombardeio aéreo. Passam a caminhar juntos, sendo que Florya a leva de volta a sua aldeia natal. Desesperado por não encontrar mais seus parentes com vida, o garoto abandona a aldeia em disparada. Ambos unem-se a um grupo de soldados informais que alimentam constantemente seu ódio a Hitler através de um boneco que o representa. Destacando-se do grupo, juntamente com um homem mais velho, comemora o roubo de uma vaca de um camponês local, mas a festa acaba quando em meio a um fogo cruzado entre o exército nazista e o soviético, o amigo e, posteriormente, a vaca morrem. Após tentar assaltar outro camponês, é acolhido pelo próprio. Quando ambos percebem a proximidade do exército alemão, voltam correndo para a vila camponesa, porém logo o Exército Nazista se apodera da vila, prende, queima, tortura e mata, em uma verdadeira orgia macabra. Após conseguir fugir de um celeiro onde toda a população da vila é queimada e escapar por pouco de ser morto por soldados nazistas - que apenas tiram uma foto com a arma no seu crânio - o garoto desmente o chefe da operação nazista que se pronunciava como inocente e enfermo, fornecendo a gasolina com que os líderes nazistas são queimados. Após atirar inúmeras vezes no retrato de Hitler, o garoto volta a se reunir a tropa restante do Exército.
Sem qualquer concessão ao sentimentalismo, Klimov apresenta com bastante maestria o gradual embrutecimento e perda de inocência  - e de dignidade - de um jovem adolescente, que passa a ter um convívio quase cotidiano com a morte, sem nunca deixar de se incomodar com ela. Sua descrição dos massacres russos são de extremo impacto e de uma brutalidade e bestialidade raras - é impossível sair emocionalmente ileso do filme, ainda que Klimov perca a mão (talvez por imposição da produção) na desnecessária seqüência final - que rescende ao realismo socialista nos seus primórdios - em que o garoto passa a atirar compulsivamente no retrato de Hitler, a cada tiro se apresentando imagens documentais em reverse motion, à guisa de expurgar com os nazistas todos os males que o mundo não precisaria ter sofrido na Segunda Guerra Mundial. Também peca por excessiva lentidão na descrição do massacre da aldeia, que chega a ser cansativo por alguns momentos - e que talvez ainda seja maior nas versões do cinema, já que esta versão em vídeo é cerca de 20 minutos mais curta. Ao seu tom realista, unem-se momentos de delírio visual e quase místico, que refletem a mente do protagonista. Sua face só conhece praticamente duas expressões ao longo de todo o filme. Abobalhado, no início. Apoplético, patético, mudo de desespero e/ou raiva do meio para o final. Os matizes surrealistas do filme não soam estranhos quando lembramos que  é inspirado em memórias de infância do cineasta,  reforçando a apresentação da guerra como vivida pela subjetividade de um adolescente. Experiências semelhantes, partindo igualmente de memórias pessoais motivaram, em período próximo, os Irmãos Taviani a realizarem A Noite de São Lourenço (1982) e  Sam Fuller Agonia e Glória (1980). Medalha de ouro no Festival de Moscou de 1984. Sovexport Film. 122 min.



2 comentários:

  1. Não sabia que o filme é baseado nas memórias do próprio Klimov. Isso certamente afetará futuras sessões que eu tiver com o DVD. Uma experiência tão forte que é capaz de deixar espectadores sensíveis apopléticos, embora não tanto quanto o pobre garoto que protagoniza a história.

    Cumps.

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  2. Assisti esse filme a bastante tempo, Gustavo...essa resenha foi escrita quando o vi. Embora não tenha mais tanta memória visual dele assim em detalhes, lembro-me do grande impacto que me provocou à época. Seus comentários são sempre bem vindos!

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